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A LIÇÃO DO PROFESSOR: O CONTEXTO SOCIAL DA CRIANÇA – 1 – por Raúl Iturra

 

1. Abertura com todos os instrumentos.

 

 

Costumamos pensar que é o professor quem ensina. Na pré-primária, na escola, nos outros ciclos, no ensino técnico, no ensino denominado superior. Os primeiros, ditos primários, fazem cidadãos; os segundos orientam para um trabalho ou profissão, os últimos habilitam para tarefas técnicas ou académicas. Todos eles sabedores e respeitáveis. Todos eles em permanente debate. Nunca se consegue pleno acordo em relação à maneira de ensinar e sobre o que deve ser aprendido pelos mais novos. Mais novos que, por seu turno, andam a aprender nos seus ciclos de vida, na escola, na casa, no bairro. Crianças nascidas numa sociedade de quem são herdeiros, quer a entendam ou não, a saibam ou não, a aceitem ou não, a mudem ou não.

 

Normalmente, acabam por retirar da memória social esse palavrão usado por mim e por outros em tantos textos e que consiste em transferir as ideias de uma geração à seguinte – da memória social, digo, o que deve ser feito e o que não. Por outras palavras e de forma simples, retiram de memória social o bem e o mal. Branco e preto. Sem gradações pelo meio, sem mais alternativas que as usadas e inventadas pelos seres que manipulam a vida para a continuar, para a produzir, para a reproduzir. Manipulação e estratégias não aprendidas na escola nem no lar, excepto as que permitem fugirem do professor e do ensino ou dos trabalhos escolares. Essas que são moeda corrente no processo de ensino e aprendizagem, conceito criado por mim há algum tempo. No entanto, há manipulações e estratégias necessárias para viver dentro do social e das suas mutáveis estruturas económicas. Essas que fazem dos países sociedades diferentes conforme a conjuntura.

 

Porém, há o processo de ensino. Porém, há as manipulações necessárias, as estratégias. Porém, subsiste o contexto social da criança e a inutilidade de muitos conteúdos da memória social. Como ser filho, como ser mãe, como tomar conta dos anciãos, como ser amigo, como ser namorado. Como e onde aprender e lidar com a vida. Um Portugal, é o da Monarquia; outro, o da República; um terceiro, o da Ditadura; um quarto, o do 25 de Abril; um quinto, a reorganização de República Democrática; um sexto, o da Democracia Europeia ou o da União Europeia. Um Portugal onde tudo é competição, violência e agressividade, quer nas escolas (como costumava dizer José Paulo Serralheiro na Página de Educação, Março 2000), ou como tenho testemunhado na academia à qual pertenço: escolas de massas, como afirma Serralheiro, a comportarem-se como escolas de elites, como afirmam Luiza Cortesão, Stephen Stoer, Helena Costa e eu próprio.

 

Com vinte anos de atraso, dizia ainda José Paulo, a violência chegou até nós. Mas chegou para ficar. Como o dinheiro, as estradas, os carros, as casas. E as genealogias. De eternas ilegitimidades, ao matrimónio ou a respeitáveis uniões de facto. Essas que deviam ser defendidas ou caladas, ou otimizadas pela hierarquia adquirida em outros sectores da vida social. A genealogia, essa memória social aprendida dentro da família, usada no grupo, informação válida para saber o progresso que faz uma criança.

 

(Continua) 

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