por Rui Oliveira
Cordas sobresselentes (1ª parte)
Na Segunda 4 de Junho (com repetição na Terça 5) tem lugar no Pequeno Auditório do Centro Cultural de Belém, às 21h, um espectáculo coreográfico “ousado” (ainda do Alkantara Festival 2012) de nome “(M)imosa”, a versão M do ciclo de espectáculos desenvolvido pelo coreógrafo/bailarino nova-iorquino Trajal Harrell intitulada Twenty Looks or Paris is Burning at The Judson Church e que aqui se cruza com a pesquisa pessoal, a experiência e os corpos de três colegas bailarinos/coreógrafos – a argentina Cecilia Bengolea, o francês François Chaignaud e a portuguesa-cabo-verdiana Marlene Monteiro Freitas.
A sua origem histórica explicar-se-ia se remontássemos à Nova Iorque dos anos 60 do século passado e imaginássemos o encontro entre dois movimentos de dança : em Harlem, nas comunidades afro-americanas e latinas, o voguing reproduzia os estereótipos sociais ligados ao mundo da moda e do luxo, misturando-os com elementos raciais e de género dos performers (principalmente gays, travestis e transexuais); alguns quilómetros a Sul, um grupo informal de bailarinos da Judson Church rompia com as representações tradicionais da dança moderna e procurava fazer dança sem artifícios, baseando-se na autenticidade e trilhando o caminho para a dança pós-moderna.
É o resultado ficcional dessa fusão que esta criação reproduz e que olhos menos “sensíveis” e preconceituados podem entrever neste breve vídeo aqui .
Também na Segunda 4 de Junho, há na Sala dos Espelhos do Palácio Foz, às 18h30, um Recital de Violino, Violoncelo e Piano de entrada livre onde a violinista holandesa Rosanne Philippens (1º Prémio da Competição Oskar Back, usando um violino construido por Bergonzi), o violoncelista português Luis André Ferreira (membro do Quarteto Lacerda e violoncelista tutti-reforço da Orquestra Gulbenkian) e o pianista bielo-russo Vital Stahievitch (dotorado na Universidade de Amsterdão com o Prof. Naum Grubert) irão tocar obras de Joseph Haydn e Antonín Dvořák.
Ainda na Segunda 4 de Junho, como é habitual quinzenalmente no bar de A Barraca (no Cinearte), às 21h30, há novo Encontro Imaginário onde o debate se estabelece entre Spartacus, o famoso e lendário líder da revolta dos escravos que pôs em pânico o Império Romano, Rita Hayworth, a bailarina e actriz criadora de ” Gilda”, vedeta precursora do glamour mais tarde incorporado por Marilyn Monroe (e até hoje não substituído …) e Calígula, o Imperador tristemente célebre pelo seu carácter sanguinário e cruel.
Anuncia-se : “Em confronto nos nossos perigosos tempos actuais : o direito à revolta dos explorados contra a escravatura real ou metafórica e a impunidade, desprezo e humilhação arrogantemente exibidos pela especulação e pelo roubo do imperialismo. E também . .. o que se passa no mundo da Arte e da Cultura, tão marginalizado e relegado para frivolidades e humor sem sangue nem alma?”
Rita, a bela Rita, entre muitas novidades, não se esquecerá de falar do seu marido Orson Welles, o genial radialista, actor e realizador que foi obrigado, como o seu amigo Chaplin, a procurar os ventos mais saudáveis da Europa libertada da peste nazi.
Decorre igualmente a 4 de Junho (Segunda) a segunda palestra do ciclo Science Public Lectures integrado no programa “Ciência na UL (Universidade de Lisboa)” organizado por Maria José R.Gomes e Patrícia Faísca. Tem lugar às 18h no Amphiteatro de Chímica do Museu de História Natural e da Ciência (à Politécnica) com entrada livre, é proferida em inglês e pertence à 1ª série do ciclo intitulada “Proteins : life’s origamis” . Destina-se esta ao grande público para o informar sobre o mundo espantoso das proteínas, as moléculas da vida. Como se dobram em estruturas compactas e organizadas ? Qual é o seu papel na evolução biológica ? Porquê podem matar-nos se são reunidas deficientemente ? E como pode o ciberespaço ajudar-nos a resolver todos estes mistérios ?
Será ministrada por Eugene Shakhnovich do Departamento de Química e Biologia Química da Universidade de Harvard (EUA) sob o título ”Evolution: From Atoms to Organisms”, o qual será apresentado por Maria João Ramos, Fac. Ciências – Univ. Porto.
Por último assinalamos que (como, por lapso, não referimos) se iniciaram na anterior Sexta 1 de Junho umas “Festas de Lisboa’12” organizadas centralmente pela EGEAC. Porque o seu conteúdo cultural é muito variável, só referiremos alguns eventos de presumível mérito que, nesta Segunda 4 de Junho (à semelhança da restante semana) se cifram em (e damo-los a título de exemplo) :
− O “Lusitango – X Edição do Festival Internacional de Tango de Lisboa’12” apresenta, sempre na Voz do Operário, às 21h, Tango – Ponte Buenos Aires – Lisboa com a Orquestra ao vivo Ojos de Tango (Argentina) e os convidado especiais Walter “el Chino” Laborde
(Argentina) e Pedro Moutinho (Portugal), acompanhado à guitarra e viola e os bailarinos Matias Facio e Claudia Rogowsky (Argentina), Mariano Otero e Alejandra Heredia (Argentina).
− Há Teatro Rápido na Rua Garrett 56-60 ou Rua Serpa Pinto 14, com seis sessões em cada uma de quatro salas, um microteatro que permite ao espectador aproximar-se do universo dos
actores, numa proposta performativa nova e intimista, na qual o público é convidado a entrar, com temas actuais e apelativos, que tiram partido de novas linguagens cénicas e tecnológicas, em colaboração com autores contemporâneos, assentes na sua maioria em textos inéditos. O tema do mês de Junho é Na Brasa.
− Há ainda, além de arraiais em vários pontos da cidade, exposições diversas, entre as quais :
a) “António – De homem erudito a Santo Popular” no Espaço A Arte da Terra (Rua Augusto Rosa, nº 40). Encerra a 30 de Junho
b ) “Fado na Cidade” – Fotografi as de José Maria Frade no Cinema São Jorge, Castelo S. Jorge e Largo Chafariz de Dentro. Encerra a 28 Junho
c) “Counting Seeds” de Gabriela Albergaria na Ermida da Nossa Senhora da Conceição (Belém), acompanhando o lançamento do livro da artista “Duas Praças e Um Jardim”, uma obra que se situa entre um ‘livro de artista’ e uma publicação e é um guia/álbum de recolha de imagens sobre um local (a Praça Afonso de Albuquerque, o Jardim Vasco da Gama e a Praça do Império em Belém). Encerra a 12 de Agosto
d) “A Sardinha é nossa!” na Fundação Millennium BCP no seu Núcleo Arqueológico (Rua Augusta). Encerra no final de Setembro
e) “O Fado e o Cinema” no Pátio da Galé. Encerra a 31 de Agosto
− Há, por último, um ciclo no Espaço Nimas denominado Lisboa : A Cidade no Cinema que se prolonga de 1 a 17 de Junho, mas apenas de Sexta a Domingo.
Pode sempre consultar-se a programação em pormenor indo ao respectivo Guia : http://www.festasdelisboa.com/application/uploads/files/FestasdeLisboa12_GUIA_press.pdf
Na Terça 5 de Junho, às 21h30, os Artistas Unidos do Teatro da Politécnica vão ao Palácio Fronteira (Largo de São Domingos de Benfica, 1 – Portão principal) ler “Os Caprichos de Marianne” de Alfred de Musset na tradução de Ana Campos, intervindo Américo Silva, Vânia Rodrigues, Rúben Gomes, Elmano Sancho, António Simão, Alexandra Viveiros, Joana Barros, Pedro Carraca, Tiago Nogueira e Pedro Luzindro.
Diz a Companhia : “ Neste ano que começámos com o maravilhoso Alfred de Musset, vamos … ler Os Caprichos de Marianne, onde encontramos a mesma inquietação que conhecemos com o “On ne Badine pas avec l’Amour”, os mesmos enganos, tanto desencontro. E a personagem sublime de Octave, esse que Jean Renoir copiou e a quem deu carne e voz, na sua obra-prima,”La Règle du Jeu”. Quase o mesmo elenco. E com esta leitura encerramos … a nossa passagem pelo universo delicado e venenoso de Musset. Nas salas do Palácio, com tantas lembranças …”
Também na Terça 5 de Junho se iniciam as comemorações “Bulhão Pato, 100 Anos depois do Centenário da Morte (1828-1912)” com que a Associação Portuguesa de Escritores vai assinalar a efeméride, com um programa que integra duas palestras e um jantar.
A primeira conferência tem lugar nesta Terça-feira no Centro Nacional de Cultura (Rua António Maria Cardoso, 68), às 18H30, sob o título “Bulhão Pato, O Homem e o Escritor na Literatura do seu e nosso Tempo” da autoria de Guilherme d’Oliveira Martins e José Manuel Mendes.
As sessões programadas para o Centro Nacional de Cultura e a de 26 de Junho na Livraria Ferin (Rua Nova do Almada, 70) têm entrada livre.
Nota da A.P.E. : Recorde-se que Raimundo António de Bulhão Pato nasceu em Bilbau, a 3 de Março de 1829, e faleceu em 21 de Agosto de 1912. Considerado como uma das últimas vozes do Romantismo Português, Bulhão Pato, discípulo dilecto de Alexandre Herculano, legou-nos uma importante obra literária, onde se destacam os livros: “Flores Agrestes”, “Canções da Tarde” e “Paquita”. O brilho e o rigor da evocação de factos, a análise das figuras humanas e o relato de eventos históricos de que foi contemporâneo tornaram Bulhão Pato num memorialista por excelência. Nas suas memórias, para além da evocação de nomes ilustres da sua geração, o escritor deixou-nos um expressivo retrato da vida portuguesa da segunda metade do século XIX.
Na Quarta 6 de Junho, às 19h, no Teatro Maria Matos, estendendo-se por três noites (também a 7 e 9 de Junho), cada uma com um programa diferente, os alunos de P.A.R.T.S., a escola de dança de Bruxelas fundada e dirigida por Anne Teresa De Keersmaeker (e que é hoje um dos epicentros de formação em dança contemporânea do mundo) apresentam uma selecção de trabalhos que variam desde duetos até quintetos. Chamaram-lhe “New Works #1 #2 #3”.
Estes são “tão divergentes quanto a dança contemporânea pode ser: íntimos ou exuberantes, viscerais ou cerebrais, gritantes ou silenciosos. Todos são o resultado de uma pesquisa pessoal arrebatada – sendo os primeiros passos públicos dos bailarinos e coreógrafos de amanhã”.
Os projectos são :
A 6 de Junho − “Behind the sun,” he repeated, “where Everything is Everything else”, “Shipibo” e “Zeitung/fragments” (este da própria A.T.D.Keersmaeker).
A 7 de Junho − “Natural order is a special case”, “111-1” e “Now and Then, Here and There”.
A 9 de Junho − “HangHang”, “EN” e “G#$*&!/Disagreement?/How to dance things with doing”.
A criação e interpretação são de Polina Akhmetzyanova (RU), Eleanor Campbell (AU), Louis Combeaud (FR), José Paulo dos Santos (BR), Camille Durif Bonis (FR), Nestor Garcia Diaz (ES), Pavle Heidler (HR), Védís Kjartansdóttir (IS), Youness Khoukhou (MR), Renan Martins de Oliveira (BR), Radouan Mriziga (MR), Alma Palacios (FR), Mohamed Toukabri (TN), Siet Raeymaekers (BE), Michiel Vandevelde (BE) e Cyriaque Villemaux (FR).
Também na Quarta 6 de Junho, às 18h no Auditório 2 da Fundação Calouste Gulbenkian, o Ciclo de Conferências “Matemática, a Ciência da Natureza” proporciona uma palestra de M. Paula Serra de Oliveira (Universidade de Coimbra) intitulada “A Teoria do Caos: de Homer Simpson ao futuro do Planeta” com entrada livre.
Introduzindo o tema, a conferencista escreve : “Na linguagem corrente o caos é uma “condição de grande desordem ou confusão”, conceito que evoca a ausência de um padrão e uma certa ideia de aleatoriedade. Mas o conceito matemático de Caos tem um significado muito diferente e nada tem a ver com a ideia de desordem. A Teoria do Caos é, no entanto, uma ciência de surpresas e do imprevisível, que nos ensina a poder esperar pelo inesperado. Estuda fenómenos impossíveis de prever como o tempo, a turbulência, ou a evolução dos mercados financeiros. Mas, para além destas e tantas outras aplicações, há um lado fascinante que os cientistas só agora começam a compreender e que ajuda a responder a questões que a espécie humana desde sempre se colocou : como é que o universo começou, como é que a poeira cósmica inicial se transformou na matéria inteligente que somos, qual será o futuro do nosso planeta, ou como é que a história da humanidade poderia ter sido radicalmente diferente. E para provar que uma iniciação à Teoria Matemática do Caos está ao alcance de todos, Homer Simpson pode ser convocado”.
É possível ouvi-la em transmissão online (compatível com Iphone, Ipad) em http://www.livestream.com/fcglive
Ainda a 6 de Junho (Quarta), às 17h30, no Clube ISCTE-IUL , “fuga de cérebros, economias emergentes, xenofobia, mercado de trabalho, segurança e privacidade” são alguns dos temas abordados na tertúlia sobre Mobilidade Internacional, a primeira de um ciclo de cinco tertúlias intitulado “A falar é que a gente se entende”, que se realiza no âmbito das comemorações dos 40 anos do ISCTE-IUL. Esta iniciativa pretende abordar temas da actualidade aproximando a investigação da sociedade e contribuindo para uma sociedade de conhecimento.
À conversa estarão o público em geral e investigadores de diferentes áreas científicas relacionadas com a temática da Mobilidade Internacional, como Ana Bénard da Costa, Alexandre Abreu, Beatriz Padilla, Carlos Serrão, Denis Zuev, José Mapril, Maria João Vaz, Nuno Dias, José Paulo Esperança e Ricardo Rodrigues.
Na Casa da América Latina recebe mais uma vez, das 21h30 às 0h00 desta Quarta 6 de Junho, o “Tango na Rua” que, como é sabido, não é uma escola de dança nem uma companhia de espectáculos, mas sim um grupo composto por pessoas de diferentes escolas de tango que organiza milongas, ou seja, bailes de tango com o objectivo de dinamizar e divulgar o Tango Argentino em Lisboa. Para o “TnR”, estas milongas fazem parte do “baile social”, não do “tango show” que estamos habituados a ver nos filmes, nos concursos televisivos ou nos espectáculos realizados em grandes recintos. A entrada é livre, com atenção para as regras de pista do tango argentino que não são de manejo fácil para leigos.
Para espreitar o que ocorre em Buenos Aires (Argentina) na “Milonga del Mundo” no Sunderland Club clique aqui .
Na Quinta 7 de Junho (e também a 8), às 21h no Teatro São Luiz, os coreógrafos/bailarinos Guilherme Garrido, Hermann Heisig, Nuno Lucas & Pieter Ampe mostram “a coming community”, uma confluência dos seus trabalhos, tão semelhantes mas tão contraditórios.
Ao longo dos últimos dez anos, Pieter Ampe, Guilherme Garrido, Hermann Heisig e Nuno Lucas encontraram-se em diferentes combinações e variadas circunstâncias, mas conhecemo-los em primeiro lugar pelos seus duetos: Lucas e Heisig fizeram, em conjunto, o maravilhoso Pongo Land, enquanto Garrido e Ampe ganharam uma certa fama com Still Difficult Duet e Still Standing You (apresentados em 2011 em Lisboa) (ver vídeo anexo no Theâtre La Chapelle, Gand em 2011). Apesar destes pares marcarem a diferença entre os seus trabalhos, os quatro “partilham um universo de espanto pueril diante de um mundo que começa nos seus corpos, resultando em performances muito físicas, visuais e poéticas, marcadas pelo humor”.
Também na Quinta 7 de Junho, actua no Coliseu dos Recreios, às 22h, o cantor canadiano/americano Rufus Wainwright que, após a recriação do show de Judy Garland no Carnegie Hall que lhe valeu a nomeação para um Grammy, vem apresentar o seu novo álbum Out of the Game, fruto da sua associação com Mark Ronson.
No espaço da FNAC Chiado, às 18h30, de 7 de Junho (Quinta) é apresentado pelo produtor Paulo Branco o filme pouco conhecido do cineasta suiço Alain Tanner com o título “Requiem – Um Encontro com Fernando Pessoa” (1998) com Francis Frappat, André Marcon, Cécile Tanner, Alexandre Zloto, Sérgio Godinho, Myriam Szabo, Delphim Miranda, entre outros.
Realizado por Alain Tanner na Cidade Branca (Lisboa) – título dum seu filme de 1983 − foi inspirado no livro de Antonio Tabucchi, que foi “assombrado” pela figura do poeta Fernando Pessoa, segundo ele o maior poeta da modernidade.
Tema : “Requiem” começa e termina no porto de Lisboa. No começo, Paul diz que marcou um encontro com alguém que não apareceu. No vaivém do tempo que está na essência do projecto, ele conta que a sua narrativa vai do meio-dia à meia-noite… Vive nos planos da imaginação e da realidade, cheio de indagações afectivas e existenciais. Quando Paul encontra Pessoa, ele comenta (critica?) o desassossego que o poeta lhe produz. E Pessoa diz que essa é a função não só da literatura, mas da arte. Por extensão, é como se Tanner estivesse falando do próprio cinema…

