Toda a situação que temos estado a viver me tem feito lembrar a peça de Jean Genet “O Balcão” (ou “A Varanda”).
Vi-a pela Companhia de Teatro Experimental de Cascais, em 1988. Não me lembro de todos os actores, tentei procurar informação mas não consegui. Que entrava a Lia Gama lembro-me bem, estive a falar com ela no fim. A minha barrigona, de fim de gravidez não me permitia sentar-me confortavelmente nas cadeiras incómodas (companhias marginais, poucas condições físicas de representação…).
Estava a ver uma comédia? Sem nada de cómico, por sinal. A alienação, a necessidade que algumas pessoas sentem de fingem ser aquilo que não são, de se apoderarem, nem que por momentos, da vivência de pessoas/cargos a que está associado o poder (bispo, juiz ou coronel), a prepotência de poderes instituídos…
Anos mais tarde (2011) o Teatro da Cornucópia levou a cena outra peça de Genet , “Ela”, obra que o autor deixou para ser editada postumamente e encenou também “A Varanda”. Genet já tinha podido ser apreciado em 1972, com a peça “As Criadas”, também no Teatro Experimental de Cascais (TEC), sob a direcção do encenador argentino Victor Garcia.
Mas voltemos ao dia em que assisti à representação de “O Balcão”. Minha filha quis apagar-me o mal estar que o conteúdo em mim provocara. Pouco tempo tive para pensar naquelas temáticas. De madrugada dei entrada no hospital. Que contraponto melhor do que o nascimento de uma criança, uma nova vida, com toda a hipótese de realização em aberto?
Passados 24 anos, numa altura em que ela tem a “oportunidade” de estar desempregada, volta-me a cabeça, de forma persistente, todo o conteúdo da peça. Certos políticos parecem os homens que no bordel assumem os papéis de polícia, juiz, coronel ou bispo. O controlo da nossa vida está nas mãos de fantoches que precisam de sentir o poder para conseguirem melhores performances…
