Site icon A Viagem dos Argonautas

São João – Fernando Pessoa

 

 

 

Fernando Pessoa  São João

 

 

 

 

 

(Almada Negreiros)

 

 

 

Ó Precursor, fizestel-a bonita!

Não que teu Christo, incarnação do Bem —

Não seja quem seja o teu Divino Anunciado.

O mal são os que após, sem mystica divina

Nem ternura christã, ou só humana,

Metteram a Jesus na cella da doutrina

Com as algemas do ódio manietado

Para depois manchar de falsa fé

O pobre homem que todo homem é

 

A cruel multidão negramente infinita

Que tem sido o algoz ou o ladrão

Da ingénua humanidade afflicta —

Esses que, aqui mesmo, pelos modos,

Dão ao inferno realisação…

 

Ah, não podiam ser peores, nem

Que a mulher do Diabo, se elle a tem,

Os tivesse parido a todos.

 

Eu bem sei que houve muito santo e crente,

Muito puro, bondoso e inocente.

Bem sei, bem sei:

Sei-o eu e sabe-o toda a gente.

 

Mas esses, cuja alma está em Christo

São só isto —

Qualquer remédio que se dissolvesse

No chá que para isso ha,

E cujo gosto nelle se perdesse;

O chá fica sabendo só a chá.

Se o remédio faz bem,

Não o sabe ninguém.

Que o chá não presta, não duvida alguém.

 

Sabemos isso, e sabel-o hia antes

De todos nós teu Mestre que viria,

Propheta, Deus e guia dos errantes,

Quão dolorosamente o saberia?

Sei que houve astros no céu da fé vazia.

 

Sei, mas repara que falso isso soa!

Por mais astros que a noite use brilhantes,

Que Diabo!, a noite não se chama dia.

 

Ó Precursor! Fizeste-a boa!

 

Dahi, para nós, és de Lisboa,

Não és o precursor de nada.

Es um rapaz ainda menino

Que tem por missão boa,

Por missão sorridente e socegada

Ter ao collo um cordeiro pequenino.

 

Lá o que esse cordeiro significa

Não tem cheiro

Para o povo, que tem a alma rica

Da emoção que não conhece.

Para elle o cordeiro é um cordeiro,

E o menino sorri e a vida esquece.

 

O resto são fogueiras

E os saltos dados a gritar

Com um medo exaggerado

Feito tudo de maneira

A mostrar

O riso, as pernas e o agrado.

E quente e anonyma a aragem,

Tudo é juventude e viço

Num arraial multicolor e vasto.

Bonito serviço

Como homenagem

A quem, ainda com cabeça, foi um casto!

 

Mas é assim que és

E é assim que serás,

Até que pisem esta terra os pés

Do ultimo fado que o Destino traz.

 

Então, esperamos, eu e todos,

Ver-te “surgir no céu”, como quem vence

Tudo que é realidade ou illusão

Por o menino ser que lhe pertence,

E os seus bons e santos modos

“Com o cordeirinho na mão”,

Como te viu Catullo Cearense.

 

Mas, desçamos à terra,

Que, por enquanto, o céu aterra,

Porque antes d’isso mette a morte.

Ha muita coisa desconhecida

Na tua vida.

Tens muita sorte

Em ninguém saber da partida

Que em mil setecentos e dezassete

Tu fizeste à Egreja constituída

Estás, eu bem sei, cansado

Com o que a Egreja se intromette

Com tua vida e o teu divino fado.

 

(E) foi então que, para te vingar

E à maneira de santo, os arreliar

Desceste mansamente à terra

Perfeitamente disfarçado

E fizeste entre os homens da razão

Um milagre assignado,

Mas cuja assignatura se erra

Quando em teu dia, S. João do Verão,

Fundaste a Grande Loja de Inglaterra.

Isto agora é que é bom,

Se bem que vagamente rocambolico

 

Eu a julgar-te até catholico,

E tu sahes-me maçon.

Bem, ahi é que ha espaço para tudo,

Para o bem temporal do mundo vario.

Que o teu sorriso doure quanto estudo

E o teu Cordeiro

Me faça sempre justo e verdadeiro,

Prompto a fazer fallar o coração

Alto e bom som

Contra todas as fórmulas do mal,

Contra tudo que torna o homem precário.

Se és maçon,

Sou mais do que maçon — eu sou templário.

 

Esqueço-te santo

Deslembro o teu indefinido encanto.

 

Meu Irmão, dou-te o abraço fraternal.

 

(in Fernando Pessoa, Os Santos Populares, Edições Salamandra e Casa Fernando Pessoa)

 

Exit mobile version