Nota prévia:
Para ouvir os poemas de Fernando Pessoa recitados por João Villaret, há que aceder à página
http://nossaradio.blogspot.pt/2013/11/fernando-pessoa-por-joao-villaret.html
e clicar nos respectivos “play áudio/vídeo”.
Ó sino da minha aldeia
Poema de Fernando Pessoa (in “Renascença”, Lisboa: Fev. 1924; “Fernando Pessoa: Poesias”, Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor, Lisboa: Ática, 1942) . Recitado por João Villaret (in LP “Fernando Pessoa por João Villaret”, Parlophone/VC, 1957, reed. EMI-VC, 1991, Valentim de Carvalho/Som Livre, 2008)
Ó sino da minha aldeia,
Dolente na tarde calma,
Cada tua badalada
Soa dentro da minha alma.
E é tão lento o teu soar,
Tão como triste da vida,
Que já a primeira pancada
Tem o som de repetida.
Por mais que me tanjas perto
Quando passo, sempre errante,
És para mim como um sonho.
Soas-me na alma distante.
A cada pancada tua
Vibrante no céu deserto,
Sinto mais longe o passado,
Sinto a saudade mais perto.
Ela canta, pobre ceifeira
Poema de Fernando Pessoa (in “Athena”, n.º 3, Lisboa: Dez. 1924; “Fernando Pessoa: Poesias”, Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor, Lisboa: Ática, 1942). Recitado por João Villaret (in LP “Fernando Pessoa por João Villaret”, Parlophone/VC, 1957, reed. EMI-VC, 1991, Valentim de Carvalho/Som Livre, 2008)
Ela canta, pobre ceifeira,
Julgando-se feliz talvez;
Canta, e ceifa, e a sua voz, cheia
De alegre e anónima viuvez,
Ondula como um canto de ave
No ar limpo como um limiar,
E há curvas no enredo suave
Do som que ela tem a cantar.
Ouvi-la alegra e entristece,
Na sua voz há o campo e a lida,
E canta como se tivesse
Mais razões para cantar que a vida.
Ah, canta, canta sem razão!
O que em mim sente está pensando.
Derrama no meu coração
A tua incerta voz ondeando!
Ah, poder ser tu, sendo eu!
Ter a tua alegre inconsciência,
E a consciência disso! Ó céu!
Ó campo! Ó canção! A ciência
Pesa tanto e a vida é tão breve!
Entrai por mim dentro! Tornai
Minha alma a vossa sombra leve!
Depois, levando-me, passai!
Gato que brincas na rua
Poema de Fernando Pessoa (in “Fernando Pessoa: Poesias”, Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor, Lisboa: Ática, 1942)
Recitado por João Villaret (in LP “Fernando Pessoa por João Villaret”, Parlophone/VC, 1957, reed. EMI-VC, 1991, Valentim de Carvalho/Som Livre, 2008)
Gato que brincas na rua
Como se fosse na cama,
Invejo a sorte que é tua
Porque nem sorte se chama.
Bom servo das leis fatais
Que regem pedras e gentes,
Que tens instintos gerais
E sentes só o que sentes.
És feliz porque és assim,
Todo o nada que és é teu.
Eu vejo-me e estou sem mim,
Conheço-me e não sou eu.
1-1931
LIBERDADE
Poema de Fernando Pessoa (in “Seara Nova”, n.º 526, Coimbra: 11-9-1937; “Fernando Pessoa: Poesias”, Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor, Lisboa: Ática, 1942)
Recitado por João Villaret (in LP “Fernando Pessoa por João Villaret”, Parlophone/VC, 1957, reed. EMI-VC, 1991, Valentim de Carvalho/Som Livre, 2008)
(Falta uma citação de Séneca)
Ai que prazer
Não cumprir um dever,
Ter um livro para ler
E não o fazer!
Ler é maçada,
Estudar é nada.
O sol doira
Sem literatura.
O rio corre, bem ou mal,
Sem edição original.
E a brisa, essa,
De tão naturalmente matinal,
Como tem tempo não tem pressa…
Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.
Quanto é melhor, quanto há bruma,
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!
Grande é a poesia, a bondade e as danças…
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol, que peca
Só quando, em vez de criar, seca.
O mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças
Nem consta que tivesse biblioteca…
