Um Café na Internet
Falar de Beethoven, é falar de venturas e desventuras. Ventura
na música, desventura na sua vida pessoal.
Costumava escrever obras de grande vulto e outras pequenas maravilhas como as que designava por bagatelas, obras pequenas, que, pensava ele, não tinha nenhum valor. No seu portefólio pós morte, encontraram-se pequenas peças que guardara como se não tivessem valor. Após a sua morte, um discípulo deu-as a conhecer ao público. Entre elas, estava a bagatela Para Elisa, peça musical na tonalidade de lá menor, dedicada ou a Giuletta Guicardi, por quem sentia uma grande paixão não correspondida, ou a sua amada imortal, anos más tarde, Thérèse Malfatti. Motivo das duas datas do título.
Confesso que foi uma das primeiras peças dele que eu adquiri, pela simplicidade da escrita e a corrida tonalidade de uma peça de apenas quatro minutos. Os seus amores desencontrados encontravam controlo nos pequenos ensaios musicais, en que o piano não tocava, cantava e transferia paz a alma. Essa paz que não encontro na pessoa amada, a quem dedicara essa bagatela. O corte da peça revela o classicismo de Beethoven, ultrapassando assim aos seus mestres como Haydn, sempre a oscilar entre a música barroca e o classicismo aprendido do seu estudante, Ludwig do seu nome. Era já um homem de idade, quando o aceitou como o seu estudante em 1791, na corte de Viena, onde a música era cultivada e criada, onde também estudara com Mozart e com Salieri.
O romantismo era a tonalidade musical da sua época e a dos seus mestres. Todos eles iluministas e revolucionários. Queriam mudar as relações de subjugação a Duques e Condes, por relações de igualdade. A Revolução fFancesa acontece e Beethoven comemora-a com peças como a Sinfonia nº 3, intitulada Heróica, para homenagear Napoleão, que o compositor pensava ser um grande revolucionário. Porém quando Bonaparte se autoproclamou Imperador, retirou a dedicatória, ficando apenas com o título de Heróica.
A bagatela Para Elisa tem sido a minha grande paixão. Não consigo negar que um dia qualquer, há dois anos, por pensar num livro que escrevia, classifiquei-a mal. Procurei por todos os sítios. Por pura casualidade, ao tentar uma Norma de Bellini… encontrei-a! Entre as notas brancas e as pretas, salta de bemol a bemol, uma brincadeira musical.
Não é bem claro porque a intitulou Elisa. Deve ter sido a sua forma de escrita: está dedicada a uma amada imortal que parece ser Thérèse Malfatti, filha de um dos seus médicos. Mas, a classificação já feita após a sua morte, ficou com o nome Elisa. Sempre deseje que uma neta minha tivesse esse nome e assim o solicitei, sem sucesso. Thérèse Malfatti, essa mal nomeada Elisa, foi o grande amor da sua vida, mas ela o rejeitou em 1810. O editor do compositor, Max Unger, diz que o biógrafo de Beethoven se tinha enganado na escrita e leu Elisa onde claramente estava escrito Für Thérèse.
A historia tem os seus enredos que o tempo não esclarece. A bagatela, no entanto, é o pronuncio da abandonada composição em tom romântico e prenuncia como todas as suas partituras seriam, doravante, clássicas. Um esforço demonstrado na sua 9ª Sinfonia, a coral, a sua obra imortal. A bagatela será curta, mas precede a todas as outras na composição clássica, em que a tonalidade é seca e amável, como as três sonatas dedicadas ao seu protetor, o Conde Walsdtein, sonatas que emanam da bagatela Elisa. Disco encontrado, alegria da vida, que sempre me tem acompanhado na escrita pela sua discrição, os saltos do adagio ao presto.
Não terei uma neta chamada Elisa, mas todas as minhas palavras passe têm esse nome! Adoro a bagatela, a brincadeira de tonalidades e os saltos das notas pretas as brancas, sempre em Lá menor.

