II-AMIZADE NUA – por Raúl Iturra

 

 

 

Previ que este texto seria a última lição que proferir, antes de me ser proibido dar aulas, por causa de doença de cancro na tiróide e um leve AVC. É com esse espírito que a envio a dois sítios, por ser quase uma premonição.

 

II-AMIZADE NUA

 

Para os meus estudantes do derradeiro ano de Antropologia Económica do ISCTE e de Etnopsicologia da Infância É-me quase impossível esquecer, o dia da minha chegada a Portugal. Tinha licença por dois meses da minha Britânica Universidade de Cambridge, para visitar durante dois meses, as Universidades Portuguesas. A diferença foi-me tão dura, que as minhas emoções fizeram-me falar com colegas e discentes e telefonar ao meu Catedrático Britânico, Sir.Jack Goody, para avisar que ficava em Portugal. Tínhamos mil anos de diferença, uma revolução na Grã-Bretanha do Século XVII, confrontada com a ainda não tão bem organizada Revolução dos Cravos de 1974 em Portugal.

 

Vi várias tristezas nas diversas Universidades – a Universidade, onde os mais novos, passam a ser médicos, advogados, antropólogos, sociólogos, professores, dentistas, esses seres humanos que não se gostamos visitar pela dor que causam, etc. É onde se ouvem as palavras senhorsenhora, a falar durante 40 minutos, ler livros, escrever textos para serem avaliados pelos docentes. Onde, no fim de anos de estudo e leitura, perguntamo-nos: e agora que? Para onde vou? Que faço? Até os arquitectos dedicam o seu tempo a guiar autocarros, dentro de uma atropelada legislação como resultado da corrida causada pelo 25 de Abril.

 

Havia falta de divertimento e de leitura de Plutarco. Não suportei, acabei o meu contrato com esse chefe britânico. Os dois meses hoje são já 25 anos (por causa de datas, 33 anos nos factos), a andar por todos os sítios de Portugal, a debater, a escrever, a organizar, a envelhecer lentamente…. Os primeiros dias em este hoje meu País, a amizade dos colegas era directa, era aberta, era nua. Não existiam minutos para estar em casa ou metros de casa para acolher a tanto adulto que me visitava.

 

Era o único Doutor que existia nessa Universidade. Na Universidade ser doutorado, é outra verdade nua, por necessária, por descobrir ideias novas, por dedicar o teu tempo tudo à pesquisa, ao debate, a escrita prévia do que vás falar dois dias depois. O meu chefe britânico e eu, trabalhamos em imensas Bibliotecas, com papel e lápis. Hoje em dia, nem de casa é necessário sair: os textos vêm a nós na caixinha mágica da Net e dos motores de pesquisa. A verdade nua, permite organizar textos com copiar e um colar. Hoje em dia não se escreve: a escrita é a arte da informática para se orientar entre o que foi ouvido, perguntado, procurado nos referidos motores. A verdade é nua por ser uma construção na confusão sem debate e citações, sem fontes e pensamentos próprios, ou trabalho em grupos que permite entender mais, formas de depender nas quais não estava habituado na minha vida académica Britânica.

Não podia falar sem hermenêutica, aos mais novos. A seguir três semanas de encerramento em casa para entender o que os discentes pretendiam dizer, reparei que estavam mal formados por causa da ditadura prévia ao ano 1974. No fim, todos se reproduzem a si próprios e ficamos cansados e perguntamo-nos: porque será que fiquei? Já são todos adultos, em idade e graus, já não precisam de nós: o chá que bebo em casa e o whisky que guardava, apodrecem na despensa.

 

A amizade ficou abandonada, os discentes cresceram, entraram em cargos políticos para dirigir a Nação substituindo as suas habituais calças de ganga, por elegantes fatos e gravata, fantasia que dá o poder. O que retiram do pensamento científico. Fica apenas uma alternativa, escrevermos livros sobre a nossa especialidade (a minha psicologia da infância), ler muito e procurar novas ideias nessa despida cabeça por falta de trabalho de campo e debater com os textos dos outros.

 

 

O desejo da humanidade tornar a ser criança

 

Bethoven Bagatela em la menor, Para Elisa

 

 

 

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