Ano de 1967
Janeiro
Dia 1 – Ano Novo foi comemorado com vinho verde, leitão assado, espumante e bolos em casa do Chefe de Posto.
Dia 16 – Saída de Ingoré da 788 e chegada da 1482. Emboscados na pista.
Dia 18 – Montagem de armadilhas com uma secção da 1482.
Dia 20 – Picagem de estrada até à Bolanha Bissabúri. Levantamos 6 abatizes.
Dia 28 – Decorreu uma operação em Sano que fica na fronteira com o Senegal. Incendiámos o acampamento.
Apreendemos uma metralhadora, várias granadas de mão, cunhetes de munições, relógios de despertador e outro material. Eu, encontrei uma catana, que ofereci ao comandante da companhia. Nesta operação, houve três mortos confirmados e vários feridos. Foram feitos cinco prisioneiros. Por parte das nossas tropas não houve qualquer baixa e muito menos qualquer ferido. Esta operação foi baptizada com o nome de “Drambuí”.
Dia 30. Encontrando-se a Companhia de Comando e Serviços do meu batalhão, em S. Domingos e pertencendo a esta o Furriel Miliciano, Dinis da Conceição Viegas, o seu pelotão sofreu uma emboscada, tendo este falecido.
Foram evacuados 6 soldados. O Dinis esteve comigo no RI 10, em Aveiro, depois fomos para o RI 15, em Tomar, antes de termos sido mobilizados para a Guiné. Era um dos meus melhores amigos e estimado por todos os camaradas. Era natural de Setúbal. Quando a notícia chegou a Ingoré, recebia com muita tristeza, consternação e lágrimas. O regime noticiava assim a sua morte, com publicação num jornal da época, sob o título “Militar morto no Ultramar. O Serviço de Informação Pública das Forças Armadas comunica que morreu em combate, na província da Guiné, o furriel-miliciano Dinis da Conceição Viegas”.
Fevereiro
Dia 13 – Operação de reconhecimento na zona de Podame e Antotinha, denominada de “Dardo 2”. 11 guerrilheiros presos e suicídio de um outro no abrigo, do quartel de Ingoré.
Dia 16 – Neste dia, foi feita uma operação à base de Canchungo e baptizada com o nome de “Dalidá”. Correu tudo muito bem, onde a minha secção, pela força das circunstâncias, foi a que mais se distinguiu. Tivemos apenas um soldado da minha secção ferido no braço esquerdo e na cabeça com estilhaços provocados pelo disparo da nossa bazuca, não sendo, felizmente nada de grave. Antes de chegarmos ao objectivo sofremos uma emboscada, que, só por sorte não sofremos qualquer baixa. Podia até ter sido eu, visto que era o primeiro da frente. Digo que podia ter sido eu porque era aí que estava concentrado o maior poder de fogo do inimigo. Uma outra secção de outro pelotão, também foi muito fustigada. Foi mais um dia bastante amargurado, entre tantos.
Sim, porque nesta terra e nesta guerra, nunca se sabe o que nos espera o dia seguinte. Para já, foi o 2º dia mais negro na Guiné, porque em 1º, não no pódio, porque aqui não há lugar para vencedores, nem vencidos, estará sempre o dia 20 de Setembro de 1966.
No sábado, dia 18 de Fevereiro, fizemos mais uma operação, desta vez à base de Suranse, que fica a meio caminho entre Ingoré e Barro, para o lado do Senegal, a que se deu o nome de “Dúvida 1”. Nesta operação participaram o terceiro pelotão da minha companhia, e o segundo, que é aquele a que pertenço, e um pelotão da 1482, que fez a segurança na fronteira, com o objectivo de não deixar passar o inimigo em debandada. O inimigo sofreu quatro mortos, um dos quais foi uma “bajuda” (jovem), ainda menina e moça, que neste dia as balas das nossas tropas lhe ceifaram a vida, cujo crime que tinha cometido era amar a sua terra, que lhe dava a mandioca, a sua bolanha que lhe dava a bianda, e a sua palmeira o óleo para cozinhar estes produtos, que deixaram de ser a sua alimentação. E um dia, poder ter marido e filhos para continuar a amar.
As nossas forças, apreenderam uma carabina automática com as respectivas cartucheiras, um capacete da nossa tropa, munições, documentos e objectos pessoais. No espaço de 8 dias participei em 3 operações, o que mostra bem a intensa actividade de guerrilha a que estamos sujeitos neste pequeno Vietname tropical.
