Num artigo que publicámos há umas semanas atrás, o jornalista e escritor uruguaio Eduardo Galeano dizia “Nós, os uruguaios temos uma certa tendência para crer que nosso país existe, embora o mundo não o perceba”,(…)“Os grandes meios de comunicação, aqueles que têm influência universal, nunca mencionam esta nação pequenina e perdida ao sul do mapa.” Um país de poucos milhões de habitantes que, como diz ele, tem população similar à de alguns bairros das grandes cidades do mundo, mas que provocaria algumas surpresas para quem se arriscasse a chegar por ali. E refere uma lista de exemplos de como o Uruguai é um país ímpar, estando para mais situado num continente onde campeiam as injustiças as assimetrias sociais*. E conclui: Talvez por esses “maus exemplos” tentam desconhecer o Uruguai, apesar da insistência dos uruguaios em afirmar que seu país existe.
Tendo lido estas afirmações de Eduardo Galeano, a intervenção do presidente uruguaio na cimeira do Rio-20, perante os representantes de 139 países, José Mujica não nos surpreendeu tanto. Foi um discurso lúcido, inteligente, alicerçado em perguntas de uma retórica impecável. Não fez promessas, como muitos dos seus pares, apenas colocou questões a que os políticos normalmente fogem. Tais como: «O que procuramos? Somos realmente felizes? Estamos a controlar as nossas invenções, ou deixamos que sejam elas a controlar-nos? O que aconteceria a este planeta se os indianos tivessem a mesma proporção de automóveis por família que têm o alemães? Quanto oxigénio nos ficaria para respirar.?
Mas vamos ver e ouvir o vídeo onde a sua intervenção ficou registada.
Uma pedrada num charco estagnado, o discurso de José Mujica. Vamos ouvir:
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*«O Uruguai aboliu os castigos corporais nas escolas 120 anos antes da Grã-Bretanha. O Uruguai adoptou a jornada de trabalho de oito horas um ano antes dos Estados Unidos e quatro anos antes de França. Teve lei do divórcio setenta anos antes de Espanha e voto feminino catorze anos antes de França» (…)«Durante a ditadura militar, não houve no Uruguai nem um só intelectual importante, nem um só cientista relevante, nem um só artista representativo, que estivesse disposto a aplaudir os mandões. E nos tempos que correm, já na democracia, o Uruguai foi o único país do mundo que derrotou as privatizações em consulta popular: no plebiscito de fins de 92, 72% dos uruguaios decidiram que os serviços essenciais deviam continuar a ser públicos.

