por Silvio Castro
Cecília Meireles e Sophia de Mello Breyner Andresen são reconhecidas unanimente como duas das maiores vozes da poesia moderna, respectivamente, do Brasil e de Portugal. Ainda que distintas pelos anos de nascimento, Cecília de 1901, Sophya de 1919, portanto com duas gerações de diferença, ambas se integram nos diversos processos de movimentos de modernidade das correspondentes poesias nacionais, bem como apresentam pontos de contacto quanto à capacidade de fazer mais dinâmicas tais modernidades por um profundo conhecimento das respectivas tradições líricas. Ainda que em Sophya essas predisposições não impeçam o grande poeta português que ela é de afrontar muito diretamente os mais complexos temas do empenho civil, o mesmo, pode-se afirmar, acontece com Cecília que sabe transformar o profundo racionalismo de suas composições, aparentemente mais próximas da subjetividade da autora do que do seu mundo social, em valores integrados igualmente no lento processo de combate ao estágio perseverante de subdenvolvimento em que ainda se debate o seu Brasil.
São dois poetas distintos, mas igualmente partecipantes de muitos princípios comuns às literaturas originadas dos movimentos de rebelião modernista próprios das vanguardas históricas brasileira e portuguesa.
Cecília Meireles cria o seu poema baseando-se principalmente na recorrência transmitida pelo movimento simbolista para a maior modernização do lirismo brasileiro. Isso em correspondência com o conceito que encontra na poesia do simbolismo oitocentista, uma das primeiras formas de modernidade, conforme o conceito logo depois desenvolvido pelas diversas vanguardas históricas nacionais, da linha que em seguida caracterizará tanto a poesia brasileira, quanto aquela de Portugal. Com este predicado básico Cecília cria uma linguagem poética de imediato impacto entre os modernistas brasileiros. Isto porque uma poesia feminina muito especial se apropria da liberdade de criação lírica trazida pela revolução modernista de 1922 e desde logo a integra numa visão ampla das formas ritmicas tradicionais com a radicalização formal do verso livre. Tudo isto sustentado pela natureza racionalista, claramente racionalista, própria dos poemas do poeta que jamais cai em incontidas formas de subjetivismo.
Cecília Meireles faz parte igualmente do grupo de poetas modernistas brasileiros, particularmente aqueles ativos no Rio de Janeiro, que desde cedo mantêm contactos diretos com as manifestações dos diversos modernismos da literatura portuguesa. Tal grupo já começara a existir a partir de 1915, com Ronald de Carvalho que, colaborando com o poeta e diplomata português, Luís de Montalvor, então em serviço na embaixada de Portugal no Rio de Janeiro, trabalha na concepção e realização do n° 1 da revista Orpheu, financiada pelo pai de Mário de Sá Carneiro, jovem e genial poeta que, ao lado do já vivido Fernando Pessoa, abrem a história da modernidade da poesia de Portugal.
Depois de 1922, a linha brasileira de colaboração Brasil-Portugal, começada por Ronald de Carvalho, se alargará com Cecília Meireles, Manuel Bandeira e outros poetas. Cecília Meireles, casada muito jovem com o empresário português Heitor Grilo, levará sempre adiante as suas ligações literárias, publicando um dos seus livros de poemas, Viagem, em Lisboa, 1939, realizando no Rio de Janeiro uma antologia de novos poetas portugueses, na qual apresenta os poetas da Geração de Orpheu, os poetas futuristas, como Almada Negreiro, bem como aqueles da Geração da revista Presença. De1934 a 1938 lecionou Literatura Luso-brasileira e Técnica e Crítica Literária na então Universidade do Distrito Federal.
Da poesia de Sophya de Mello Breyner tive oportunidade de afirmar em determinada ocasião:
“O canto de intensa feminilidade de Sophia é um canto geral onde cabem todos os tons líricos. Desde aqueles os mais íntimos, ligados a uma suave, mas complexa expressão de subjetividade, até aqueles outros de visão exterior, da natureza, do homem, da alteridade.”
Como exemplo dos diversos, mas semelhantes cantos que enriquecem o lirismo do Brasil e de Portugal, apresento em seguida dois poemas, ambos marcados pela sabedoria formal própria dos nossos dois poetas, bem como do profundo sentido universalista que ambos contêm. Para melhor ressaltar tais características, a cada um dos poemas acompanha uma tradução para a língua italiana, realizada por Simonetta Masin.
De Cecília Meireles apresentamos, com a tradução, o poema “Motivo”, presente em suas Poesias Completas, Ed. Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 2001; de Sophya de Mello Breyner Andresen, igualmente com a tradução italiana de Simonetta Masin, o poema “Bach Segóvia guitarra”.
Cecília Sophia
Motivo Bach Segóvia guitarra
Eu canto porque o instante existe A música do ser
e a minha vida está completa. Povoa este deserto
Não sou alegre nem sou triste: Com sua guitarra
sou poeta. Ou com harpas de areia
Irmão das coisas fugidias, Palavras silabadas
não sinto gozo nem tormento. Vêm uma a uma
Atravesso noites e dias Na voz da guitarra
no vento.
Desmorono ou me edifico, A música do ser
se permaneço ou me desfaço Interior ao silêncio
– não sei, não sei. Não sei se fico Cria seu próprio tempo
ou passo. Que me dá morada
Sei que canto. E a canção é tudo. Palavras silabadas
Tem sangue eterno a asa ritmada. Unidas uma a uma
E um dia sei que estarei mudo: Às paredes da casa
– mais nada.
Por companheira tenho
A voz da guitarra
E no silêncio ouvinte
O canto me reúne
De muito longe sonho
Pelo canto chamada
E agora de mim
Não me separa nada
Quando oiço cantar
A música do ser
Nostalgia ordenada
Num silêncio de areia
Que não foi pisada
Motivo Bach Segóvia chitarra
Io canto perché l’istante esiste La musica dell’essere
e la mia vita è completa. Popola questo deserto
Non sono allegro né sono triste: Con la sua chitarra
sono poeta. O con arpe di sabbia
Fratello delle cose fuggenti, Parole sillabate
non sento piacere, né tormento. Vengono una a una
Attraverso notti e giorni Nella voce della chitarra
nel vento.
La musica dell’essere
Se demolisco o se edifico, Interiore al silenzio
se rimango o mi disfo Crea il suo stesso tempo
Che mi dà dimora
– non so, non so. Non so se resto
o passo. Parole sillabate
Unite una a una
So che canto. E la canzone è tutto. Alle parete della casa
Ha sangue eterno l’ritmata.
E un giorno so che rimarrò muto: Per compagna ho
– più nulla. La voce della chitarra
E nel silenzio udente
Il canto mi riunisce
Da molto lontano vengo
Dal canto chiamata
E ora da me
Non mi separa nulla
Quando sento cantare
La musica dell’essere
Nostalgia ordinata
In un silenzio di sabbia
Che non fu calpestata
