Site icon A Viagem dos Argonautas

EM COMBATE – 120- José Brandão

 

 

O furriel portador da má notícia pareceu-me um tanto confuso e apreensivo. O caso não era para menos.

 

Conhecia bem os outros soldados e tinha a certeza de que ninguém tinha trazido vinho para o Ismael. Se, por um lado, todos gostavam dele, por outro, já estavam fartos de fazer os serviços que lhe competiam. Além do mais, no fundo, era a vida de todos que estava em perigo. E mais ninguém, para lá do Ismael, conseguia fazer daquela arma tão simples uma autêntica máquina de acertar nos guerrilheiros.

 

A arma que na sua essência não era mais que um simples cano de aço, tinha no lado superior uma espécie de tampa que, para além de segurar o dito cano, o vedava evitando assim a entrada de sujidade. Para disparar, o apontador pousava a base do cano no chão, numa superfície o mais dura possível e inclinava-o para o lado do inimigo. A maior ou menor inclinação, feita a olho, determinava a distância a atingir pela granada. Depois, era só meter as munições pela boca do cano, que elas escorregavam até ao fundo, onde um percutor fixo fazia detonar a carga propulsora. Ouvia-se um pum característico e segundos depois rebentava a granada, espalhando estilhaços nas hostes guerrilheiras.

A espera foi longa e cansativa – toda a atenção é pouca – e os guerrilheiros não apareceram. Talvez por culpa do informador da “nossa confiança”, que nos fornecera o local e a hora da passagem dos guerrilheiros. Quiçá uma simples artimanha para lhes facilitar os movimentos noutra passagem qualquer. Porém, o mistério do vinho do Ismael continuava a dar-me volta ao miolo. Trapaça assaz estranha que nunca me foi desvendada. Nem a mim nem a ninguém com responsabilidades de comando. Quem a fazia, fazia-a muito bem feita, não há dúvida.

 

Tarde quente e abafada na baixa lisboeta. Sentei-me numa esplanada para tomar uma imperial quando se aproximou de mim um sujeito de cerca de trinta anos. Fato cinzento-escuro, camisa azul de colarinho branco, gravata, sapato de pala. Quem será, pensei.

– O meu alferes não me conhece?

Como de costume fiquei embaraçado. A cara não me era estranha, mas não fazia a mínima ideia de quem era. Estendi-lhe a mão para ter mais uns segundos para pensar, à espera de um milagre. Mas nada. Foi ele que salvou a situação: perante o meu ar pasmado, declarou sem mais delongas:

– Então, sou o Ismael… da Guiné!
Não consegui evitar o lugar-comum:
– Mas não é possível!

 

A conversa foi longa, a relembrar velhos tempos, como não podia deixar de ser. A guerra deixou marcas, mas também saudades dos tempos de juventude. Tempos que eram, em simultâneo, de esperança e de desespero, de sonho e de realidade. Tempo em que a vida era posta à prova e o sofrimento em comum fazia amizades verdadeiras e duradoiras. Ismael contou como se viciara no álcool, único refúgio que encontrou para um estado depressivo e profundo. O perigo, a total incapacidade para a vida militar – algo que contrariava de todo a sua maneira de ser pacífica e um tanto indolente –, o isolamento, o clima, o desgaste psicológico, tudo conspirava para lhe fustigar o espírito.

– Já vi que não bebe – tinha recusado uma cerveja –. Como é que conseguiu?
– Fiz uma cura de desintoxicação. Foi duro, mas com o apoio da família consegui!
– E então o que é que faz na vida?

 

Ismael parece que esperava aquela pergunta. Parecia sentir-se na necessidade de apagar a imagem que deixara nos tempos da Guiné de um pobre diabo sem eira nem beira, viciado na bebida e com um futuro mais que incerto. Foi com visível satisfação que falou do curso de gestão de empresas que tirou e da sua sociedade com o pai numa firma importante de exportação de cortiça.

Fiquei admirado. Quem havia de dizer que aquela espécie de farrapo humano irresponsável que conheci na Guiné se tinha metamorfoseado num autêntico “executivo”, próspero, casado e pai de filhos!

 

Conversámos durante mais de uma hora, a recordar os tempos da guerra, a perguntar por este e aquele, a saber novidades dos nossos companheiros de campanha, a lembrar os mortos e feridos, a relatar episódios, alguns tristes, alguns anedóticos. De repente, veio-me à memória o episódio da emboscada do Corubal.

 

– Já agora que está tudo acabado e já não há o perigo de apanhar um castigo, responda-me só a uma última pergunta: Quem é que lhe levava o vinho para as operações?

Ismael não conteve uma gargalhada sonora.

 

– Então não sabe? Ninguém! Era eu mesmo. Antes de sair para o mato, lavava o cano do morteiro por dentro.

Depois, ia à cantina dos libaneses e enchia-o de vinho. Ninguém dava conta. Eram três litros…

Adaptado do livro de contos “A COR DO SILÊNCIO” (Editorial Escritor, Outubro de 2003) de Costa Monteiro

 

Exit mobile version