Uma das actividades operacionais mais perigosas da guerra colonial eram as colunas auto pelas picadas do mato. A velocidade era muito lenta, o capim alto e a defesa difícil porque, em movimento, a observação é limitada e as pontarias muito incertas. Por outro lado, o inimigo, os “turras” como dizíamos, para além das emboscadas, colocava minas. Por essa razão, eram tomadas várias precauções. De madrugada, saía uma guarda avançada, mais conhecida por “picagem” com pessoal munido de uma espécie de chuço, para picarem o terreno a fim de detectarem esses terríveis engenhos explosivos.
Era o que acontecia entre Nova Lamego e Piche (aqui estava destacado um pelotão do esquadrão). De cada uma destas localidades saía uma equipa de picagem que se encontravam a meio do caminho, junto à aldeia de Bentém, organizada em autodefesa pelas populações locais. Depois, aguardavam pela passagem das colunas, nas quais apanhavam boleia para os quartéis de origem. E foi aí que se passou um dos casos mais insólitos que me foi dado conhecer.
Uma bela madrugada, saiu de Piche, em direcção a Nova Lamego, uma coluna escoltada por um pelotão de reconhecimento do Esquadrão. À chegada a Bentém deparou com a equipa de picagem atarefada a levantar minas da picada e das bermas. Entre minas anticarro e antipessoal, se a memória não me falha, levantaram-se
E só aí o alferes comandante do pelotão percebeu a sorte que teve.
Com efeito, a aldeia em questão acabara de sofrer durante a noite um ataque dos guerrilheiros. Como pertencia à zona de acção do Batalhão de Nova Lamego, saíram tropas dessa localidade em socorro dos atacados, pondo o inimigo em fuga. Tudo sem incidentes de maior.
Porém, poucos dias atrás, ainda estava à responsabilidade do batalhão de Piche. Caso essa responsabilidade não tivesse sido mudada, o que teria acontecido era o socorro ter sido prestado pelo pelotão de reconhecimento. E, se o tivesse feito, teria sido um desastre. As viaturas teriam que seguir de noite pela picada, a toda a velocidade, sem esperar pela picagem e, claro, cairiam fatalmente nas minas. Mas havia mais: os soldados que saltassem das viaturas para se abrigarem do fogo inimigo saltariam para cima das minas antipessoal colocadas nas bermas.
Uma carnificina!
É caso para dizer: ainda bem que os guerrilheiros não foram avisados da mudança da responsabilidade…
O SEGREDO DO SOLDADO ISMAEL
– Meu alferes, o Ismael está a dormir e não há meio de o acordar!
Esta notícia do Ismael deixou-me muito apreensivo. Só me faltava que, mais uma vez, levantasse problemas. Não era mau rapaz mas, por mais que se tentasse vigiá-lo, acabava os dias sempre embriagado. Não tinha mau beber, por vezes até tinha piada, mas ficava incapacitado para o serviço, fosse ele qual fosse. No quartel, ainda se poderia tolerar mas ali era um desastre. Tudo porque estávamos emboscados nas margens do Corubal, junto a uma cambança, à espera que um grupo de guerrilheiros tentasse atravessar o rio.
– Fale baixo – segredei ao ouvido do furriel –, que os turras ainda nos ouvem! Mas o que é que ele tem? Não me diga…
– É isso mesmo, meu alferes. Cheira a vinho que tresanda.
– Mas então não o revistaram como de costume antes de sairmos para o mato? Não foi as ordens que dei?
– Fui eu mesmo que o revistei e não levava vinho no cantil nem em parte nenhuma… Não sei como é que…
– Foi alguém que lhe fez o jeito – interrompi –. Tenha paciência mas quando chegarmos ao quartel vamos averiguar o caso, para se saber quem foi. E agora, quem é que vai fazer fogo com o morteiro se os turras aparecerem?

