a alta finança, os mesmos funcionários menores, os governos nacionais. Uma nova série.
Selecção e tradução de Júlio Marques Mota
1. As velhas histórias de JP Morgan
Marc Roche
O banco americano JPMorgan Chase é agora o objecto de todos os escárnios. Desde o anúncio, em 10 Maio, da perda pelo menos 2 mil milhões em operações de corretagem na sua filial de Londres, o seu Presidente, Jamie Dimon, faz rir – um riso amarelo – e na proporção da sua arrogância, a de quem está habituado a dar lições e a autoproclamar-se um génio. Acima de tudo, do alto do seu Olimpo, “Jamie, o magnífico” não sofre nenhuma crítica.
O autor destas linhas já teve a experiência do desprezo exibido por Jamie Dimon face aos seus adversários. Um artigo intitulado “uma velha rivalidade entre a banca protestante e a banca judaica ” tinha sido a causa dessa experiência. Este texto, publicado no Le Monde de Outubro de 2008, a propósito do papel do JPMorgan na falência, três semanas antes, de Lehman Brothers, tinha bem destacado o anti-semitismo exibido pela casa Morgan no século XIX e até a Segunda Guerra Mundial.
“Como é que se atreve a mexer nessas velhas histórias?”, queixou-se o porta-voz do banco em tom peremptório. De um dia para o outro por ter lembrado um facto histórico inegável, o correspondente do Le Monde tornou-se persona non grata na corte do rei Jamie Dimon. Havia ainda muito a ser dito.
ANTISEMITISMO
No final do século XIX, a casa Morgan, então o maior conglomerado da história financeira mundial e os seus acólitos protestantes de bom chique e de bom género são omnipotentes. J. Pierpont Morgan (1837-1913), representa então a América das mil e uma noites, mas também a América dos seus excessos, dos seus abusos, dos seus “barões ladrões”, que foram tanto odiados.
O seu poder é baseado em três bancos: JPMorgan em Nova York, Morgan Grenfell em Londres e Morgan & Company em Paris. Na época, este universo da alta finança euro-americano mistura famílias WASP (“brancos, anglo-saxónicos e protestantes “) da costa Este dos Estados Unidos, Lordes passados por Eton depois Oxford ou Cambridge e ainda continentais de mais puro sangue azul.
J. Pierpont Morgan é também um virulento anti-semita. Esta peça preciosa do protestantismo não evitava falar alto e bom som sobre o desconforto que sentia na presença dos seus colegas judeus. Morgan, mas também Kidder Peabody & Co, First Boston e George f. Baker, o precursor do Citigroup, recusaram-se a fazer negócios com as empresas judaicas. Sujeitos então a uma verdadeira segregação, as instituições judaicas eram sistematicamente excluídas dos grandes financiamentos industriais, na indústria automóvel, na siderurgia, no petróleo…
Eles tiveram que se contentar em ocupar apenas os sectores menos nobres da distribuição, do têxtil e da agro-indústria. Os Kuhn Loeb, os Lehman ou Goldman Sachs fá-lo-ão pois, mostrando-se particularmente inovadores em matéria de montagens financeiras em benefício dos novos actores económicos, em particular no sector dos serviços, então em vias de criação.
Os católicos não estão em melhor situação. Confrontado ao mesmo ostracismo, eles refugiam-se na banca comercial. O único banco “de negócios” é Merrill Lynch, fundado por um irlandês.
Apoio discreto ao III REICH
Na década de 1930, Morgan crítica publicamente a perseguição dos judeus na Alemanha nazi. Mas em privado, a casa encaixa-se muito bem com um regime que, ao ouvi-lo, combate o mesmo inimigo: o comunismo. A empresa Morgan em Londres espera que este apoio discreto ao Reich e à política de apaziguamento para com Hitler venha a permitir recuperar o enorme pacote da dívida alemã ligada às reparações da primeira Guerra Mundial que o banco detém.
Será necessário esperar até 1984 para que um dirigente judeu aceda à posição de número dois do JPMorgan. Em Londres, na mesma altura, Morgan Grenfell (agora integrado no Deutsche Bank) não empregava sequer judeus no sector Internacional.
Felizmente, a época em que o factor religioso dominava a vida empresarial está hoje, de facto, bem distante. Com a desregulamentação e a globalização, a religião desapareceu como valor dominante. Apenas permanece a competência. Uma sala de mercados é hoje uma torre de Babel (… mas onde toda a gente fala inglês!). Tudo se reduz ao díptico: comprar ou vender. A finança tornou-se uma aldeia “global”, cosmopolita e transfronteiriça. Assim, no escândalo que atinge actualmente JPMorgan, o corretor responsável, Bruno Michel Iksil, é francês, o seu chefe em Londres é grego e a chefe de seu departamento, Chief Investment Office, é americana.
Medo de arrependimentos
Desde há muito tempo que já deixou de ser útil para uma carreira, ser protestante em JPMorgan – Jamie Dimon é grego ortodoxo – ou judeu na Goldman Sachs. A hostilidade histórica entre as duas confissões concorrentes em que se partilhavam as finanças anglo-saxónica até a década de 1960, devido principalmente ao pudor e modéstia do catolicismo face ao dinheiro e/ ou à hostilidade do Islão face aos créditos com juros, tudo isso, simplesmente desapareceu.
Resta ainda sublinhar que JPMorgan nunca manifestou publicamente o seu arrependimento quanto ao seu período anti-semita, que correspondia à sua idade de ouro. Com efeito, no andar das salas de jantar, na sede da Park Avenue, J. Pierpont está omnipresente, pelos seus retratos, pela sua secretária, pelos seus livros raros. Mais se enriquece a negociar com o futuro mais se tende a procurar refúgio num passado que autoriza todas as indulgências.
Marc Roche, Les “vieilles histoires” de JPMorgan, Le Monde.
