Adiantamos, em pré-publicação autorizada pelo autor, uma das vinte lições do Curso de uma imaginária Universidade de Verão. O livro será lançado, no próximo dia 12, pelas 19 horas, sendo apresentado por Manuel Pinto, docente universitário, ex-jornalista e ex-provedor do Leitor, na Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto (Rua Rodrigues Sampaio, 140).
DECOMÉDIA
Com o tempo, uma imprensa cínica, mercenária, demagógica e corrupta formará um público tão vil como ela mesma. 1
Joseph Pulitzer
O xonarlismo non morreu. De certeza, cada vez está máis presente. O que morreu e é unha verdadeira desgraza – é o xornalista tradicional, comprometido, axitador, inconformista, crítico… Hoxe vivemos tempos de consensos esmagadores.2
Carlos Reigosa
Dispomos de centenas de canais/estações de TV/Rádio. Têm um preço. Facultam-nos milhares de publicações em suporte de papel/on-line. Têm um preço. Estamos cercados por condicionários da inteligência/da vontade/dos desejos/da sensibilidade/dos impulsos (políticos/comerciais/sociais/culturais). Convidam-nos a comprar o nosso cativeiro/a nossa pulseira mediática. São realmente muitos mas são demasiado semelhantes. Têm dono. Quase todos se declaram objectivos/isentos/imparciais/independentes. Utilizam muita cor e muito som para seduzir/estontear: conduzir os rebanhos. Programam os dias e as noites como os cabos de guerra planeiam as ofensivas: nós, telespectadores, nós, radiouvintes, nós, leitores, não passamos de consumidores de refeições preparadas com todos os aperitivos/condimentos/aditivos das Indústrias da Infor(matação) Controlada-Publicidade Dirigida. Comecemos por desconfiar dos que têm necessidade de espectacularizar a imparcialidade e de nos envolver nos seus cenários. Tratemos de os sopesar como amigos de ocasião ou inimigos de camuflado, que nos prestam algum serviço ou dão algum alvitre ou montam emboscadas. Lúdicas, por vezes. Tratemos de os ouvir como vendedores de mercadorias emocionais/mentais, além do seu grande empenho em nos caninizar/fidelizar como clientes/crentes do Grande Bazar Mediático-Teologia do Mercado.
Acima de tudo, recomenda-se estado de alerta máximo perante a maior arma de destruição (massiva/maciça) de personalidades/colectividades, municiada pelo Neoliberalismo Globalizante: o televisor. Para manter o estado de prontidão, face a esta Ogiva de Cabeça Múltipla, é indispensável conservar o comando sempre em posição correcta: dedo no gatilho. Alguém nos quer constantemente ordeirizar/abater. Exerçamos o direito de defesa/contra-ataque. Façamos zapping como snipers da GEU/Guerrilha Electrónica Universal. Disparemos à queima-roupa na direcção dos pivots com semblante de Estado ou com ar de privada/de comentadores de aparência contestatária ou de bobos W.C.
Limpemos o écran do Sistema com sabão Radical. Para grandes males, grandes remédios Deixemos de dizer: É a hora do noticiário. Não. É a hora do propagandiário. É ur(gente) que cada cidadão do mundo tire um curso intensivo de minas/armadilhas/espingardas com mira telescópica. Precisamos de um Diploma de Atirador Multimédia/de Unidades Móveis de Glo(balística). Assim, embora dispensando à TV a atenção devida ao estatuto de instrumento-mor de clonagem de seres humanos em carneiros, jamais deveremos descurar a Rádio/Imprensa escrita/oferta livreira/as redes-net. Adaptemos a cada produtor/produto a especificidade da carga balística/do alvo certeiro. Na nossa viseira deveremos, sem grandes compassos de espera, actualizar as estatísticas: somos um país do pelotão da frente em número de consumidores de resíduos audiovisuais e de relva de estádio e somos um país da lanterna vermelha a consumir livros e, quando consumimos, tendemos para a Literatura das Doenças Infantis do Capitalismo/dos Chiclets Culturais de Hipermercado. Best-seller, na generalidade, quer dizer Linha Editorial de Cabeleireiro.
No entanto, como consumidores, deveríamos promover a organização da resistência pessoal/nacional/global, corporizável num novo tipo de associativismo, a que daremos um nome neo: DECOMÉDIA.3 Como? Desde já, disparando o telecomando/sintonizador/abandonando nas bancas e prateleiras o lixo do Sistema. Desde já, usando máscara no mercado audiovisual e luvas no mercado impresso/abordando relutantemente qualquer produto das ETAR`s do Poder/Saber. Desde já, cooperando na formação de novos conteúdos/novos públicos, pois se nos mantivermos como escaravelhos-bosteiros, arrastando os detritos da Sociedade da Abundância e se não ampliarmos o Levantamento de Rancho, restaremos na Pré-História Alimentar das Cons(ciências).
Arrojemos, na primeira aula de ginástica cívica, um Livro Proibido e outras publicações marginais contra os vazadouros digitais/parabólicos/por satélite. Façamos um esforço para não ofender demasiado a vista com a Imprensa de Referência/Sarjeta, faces do mesmo sujeito, o capitalismo selvagem, que finge comer com faca/garfo/guardanapo, fazendo, um, as necessidades debaixo da mesa/outro, em cima da mesa. Não consumir é uma opção de grande ascese democrática. Os telespectadores/radiouvintes/leitores só ganharão em não acumular resíduos no Sistema nervoso central. A Declaração de uma Greve Geral por tempo indeterminado a produtos informativos/culturais avariados talvez se revele uma Forma Superior de Contestação. Haverá que exaltar a Ideal Liberdade de Imprensa e problematizar a Real Liberdade de Empresa. Esta última tão receptiva a choques tecnológicos como avessa a choques sociológicos.
Por outro lado, a auto-legendada Classe Jornalística não deve ficar à espera de um questionamento ao retardador e do exterior. A Comunicação é Social mas também comporta uma dimensão de Sector e uma dimensão de actor. Existem volumes de dossiers atirados pelo patronato privado/estatal para a berma da estrada das negociações. Existem atropelos à Liberdade de Imprensa e ao Pluralismo que davam para congestionar um Tribunal de Delitos Censórios-Laborais. A Comunicação Social está a pedir um buzi(não). Alguma da energia do pseudo-jornalismo musculado da Nossa Praça faria bem em ser aplicada em causa própria. E tem prementes/pungentes motivos face às condições profissionais/assistenciais. Seria uma excelente cacha acordarmos com uma vaga de inconformismo vinda de dentro. Teremos, contudo, de manter a expectativa em limiares típicos de uma classe que só é francamente mobilizável quando os motores sociais aquecem o ambiente e se desencadeiam disputas de amplificadores. As associações ambientalistas deveriam integrar, sem tibiezas, na sua Agenda, a maioria das publicações periódicas e não-periódicas e das emissões sonoras e visuais: para além das mentes, quantas florestas não são devastadas e quantas atmosferas não se degradam com as edições do Sistema?
Há, entretanto, que conferir significado a uma concertação/direcção de pequenos passos. O tempo não está para conversões em massa mas para conversões à massa. O que leva uns a entregar-se ao inimigo/outros a enveredar pela resig(nação). Atitudes que podem resolver aspirações ou cobrir indolências particulares/esconder amarguras idealistas mas que nada contribuem para um ab(anão) nos recintos do publicado e dos públicos. Contribuir para um meio ambiente mais saneado implica uma auto-desintoxicação mediática e um desinquinamento das fontes. Seria bem necessário um Protocolo de Quioto para atenuar a carga tóxica do Planet da Informação. Mas quem o celebra? Não poderemos confiar na grande maioria dos Estados nem na grande maioria dos empresários nem na grande maioria dos assalariados nem na grande maioria dos infogaseados. Como é do contudo move-se de Galileo Galilei, evoluir-se-á do consenso esmagador para o consenso emancipador, a partir de Pequenas Células de Infocidadania/Redes de Contra-Projecto.
Eis o Estado da Nação dos Onze.
Os Donos do Showinfo passeiam-se sobre a espinha dorsal de numerosos red(actores) – chiens de garde que se reviram com as cócegas ventrais. São mesmo sujeitos para fingir que nada têm a ver com o retratado/cadastrado. É com este Jornalismo Ordeirista & Diversionista que temos de nos haver em todos os debates/combates. É com um ambiente político-jurídico cada vez mais criminalizador das opiniões anti-sistémicas e da investigação de fundo que teremos de nos posicionar como cidadãos-consumidores. De certa maneira/havia mais liberdade de Imprensa no fim do séc. XIX/princípio do séc. XX em Portugal do que no fim do séc. XX/princípio do séc. XXI. Se ressucitasse/Rafael Bordalo Pinheiro passaria a vida de tribunal em tribunal, para não dizer de cadeia em cadeia. Provavelmente teria de se refugiar nas Caldas da Rainha a moldar falos e batráquios em nome do Zé Povo e da Patroika/antiga Pátria. De facto e de jure, a pressão penal paira no clima de trabalho e contribui para o défice de transparência. Quando é que Bordalo voltará a chamar porco ao rei? O honrado red(actor) terá de se precaver. Está de volta o Jornalismo de Entrelinhas. O ludibriado leitor terá de se defender e treinar a vista. Na verdade e na generalidade, se gastamos mais de dez minutos com um diário ou mais de quinze minutos com um semanário da Uniformédia, é de recear um problema de fixação doentia/amarração. Procuremos um consultório perscrutador/respeitador de segredos íntimos. Acomodemos as partes no divã e desvendemos o que nos vai na alma. Ler jornais poderá significar saber menos? A desconfiança tornou-se digna de caricatura.
Às vezes, a única coisa verdadeira num jornal é a data. 4
Neste panorama de mentiras e omissões programadas/dúvidas armadilhadas/verdades superficializadas, é ur(gente) pugnar por um Jornalismo Inqui(ético), que não se submeta a consensos esmagadores. Por este Jornalismo valerá a pena clamar e terçar como Ribine, sinalizador de leituras essenciais:
Ajuda-me! Dá-me livros, daqueles que um homem, depois de lê-los, não encontre sossego.5
Este Curso pretendeu alertar alunos/adestrar candidatos/desiludir estagiários/reescolarizar profissionais. Também teve a intenção de intranquilizar telespectadores/radiouvintes/leitores. Fez o possível por reintroduzir o espírito de verão no inverno do nosso descontentamento.6 Encerraremos o presente ciclo com um apelo/que gostaríamos de ver retransmitido nos aparelhos de Comunicação ao abrigo do Direito de Resposta.
Cuidado.
Acima de tudo e de todos/a lidar com a Televisão. Nunca será demais reflectir sobre o poder fascinador/regulador/normalizador/malfeitor deste equipamento. Foi transformado numa prótese biológica/numa arma ideológica e numa fábrica de teledependências. Tornou-se sofisticada(mente) mediocratizada/mediocratizante. Os Espaços Retóricos & Cénicos do Sistema estão empenhados em transmitir/com abundantes e cativantes meios técnicos/a mesma coisa/defender a mesma causa com caras de cartaz ou fortuitos convidados, mais ou menos à mesma hora. O telespectador já não suporta o rancho do dia nem os enlatados da noite? Zapping. Mude-se para um canal dito Segundo. Poderá conter menos carga tóxica/até gratificantes surpresas. Mude-se para a Mezzo. Declare-se exilado político-musical. Zapping. Mude-se para as manhãs de domingo. As televisões também obrigam os inocentes a madrugar. Regresse ao parque infantil. É menos custoso suportar horários pobres do que horários nobres. Zapping. Mude-se para o National Geographic. Qualquer paisagem é menos hostil/qualquer selva é menos feroz. Zapping. Mude-se para a CNN. Ficará a saber o que pensa o patrão. Evite perder tempo com intermediários. Tempo é dinheiro. Money. Corte nos gastos.
Inscreva-se na RAMG/Resistência Anti-Mediática Global.
1. Pulitzer, Joseph (1847-1911). Jornalista-empresário.
2. Reigosa, Carlos, jornalista, escritor. Citação: in editorial Galaxia novidades: www. editorialgalaxia. com (Primavera/Verão ’07).
3.DECOMÉDIA/Defesa do Consumidor dos Média.
4.Veríssimo, Luís Fernando, jornalista, escritor (odiario.info, José Paulo Gascão, 24/05/2008).
5. Ribine, citado por Francisco Mangas, jornalista, escritor, Notícias Sábado/NS, 31/05/2008. Fonte original: A Mãe, Máximo Gorki (1868-1936).
6. This is the winter of our discontent made glorious summer by this sun of York/Richard III/1592-1593/Shakespeare/The Winter of Our Discontent/1961/Steinbeck, John (1902-1968).
DECOMÉDIA
Com o tempo, uma imprensa cínica, mercenária, demagógica e corrupta formará um público tão vil como ela mesma. 1
Joseph Pulitzer
O xonarlismo non morreu. De certeza, cada vez está máis presente. O que morreu e é unha verdadeira desgraza – é o xornalista tradicional, comprometido, axitador, inconformista, crítico… Hoxe vivemos tempos de consensos esmagadores.2
Carlos Reigosa
Vigésimo Dia de Aula. Treino de Uso & Porte de Arma de Defesa Mediática. Recomendações de Protecção Mental: como folhear jornais/revistas; como contrariar a Voz do Dono (televisiva/radiofónica/on-line). Permanecer em estado de prontidão cívica/cultural. Manter o dedo no gatilho perto do emissor de propaganda/publicidade. Suspeitar/por princípio/de propostas de grande audiência. Resistir à condição de escaravelho-bosteiro. Aprender a lidar com chiens de garde. Buscar escapatórias/refúgios sempre que o bombardeamento mediático se torne avassalador/saturador. Apoiar os Movimentos Anti-Lixo. Criar tertúlias de indig(noção)/indig(nação). Organizar as forças do bom-senso contra as forças do consenso. Opção Ribine: adormecer inquieto.
Dispomos de centenas de canais/estações de TV/Rádio. Têm um preço. Facultam-nos milhares de publicações em suporte de papel/on-line. Têm um preço. Estamos cercados por condicionários da inteligência/da vontade/dos desejos/da sensibilidade/dos impulsos (políticos/comerciais/sociais/culturais). Convidam-nos a comprar o nosso cativeiro/a nossa pulseira mediática. São realmente muitos mas são demasiado semelhantes. Têm dono. Quase todos se declaram objectivos/isentos/imparciais/independentes. Utilizam muita cor e muito som para seduzir/estontear: conduzir os rebanhos. Programam os dias e as noites como os cabos de guerra planeiam as ofensivas: nós, telespectadores, nós, radiouvintes, nós, leitores, não passamos de consumidores de refeições preparadas com todos os aperitivos/condimentos/aditivos das Indústrias da Infor(matação) Controlada-Publicidade Dirigida. Comecemos por desconfiar dos que têm necessidade de espectacularizar a imparcialidade e de nos envolver nos seus cenários. Tratemos de os sopesar como amigos de ocasião ou inimigos de camuflado, que nos prestam algum serviço ou dão algum alvitre ou montam emboscadas. Lúdicas, por vezes. Tratemos de os ouvir como vendedores de mercadorias emocionais/mentais, além do seu grande empenho em nos caninizar/fidelizar como clientes/crentes do Grande Bazar Mediático-Teologia do Mercado.
Acima de tudo, recomenda-se estado de alerta máximo perante a maior arma de destruição (massiva/maciça) de personalidades/colectividades, municiada pelo Neoliberalismo Globalizante: o televisor. Para manter o estado de prontidão, face a esta Ogiva de Cabeça Múltipla, é indispensável conservar o comando sempre em posição correcta: dedo no gatilho. Alguém nos quer constantemente ordeirizar/abater. Exerçamos o direito de defesa/contra-ataque. Façamos zapping como snipers da GEU/Guerrilha Electrónica Universal. Disparemos à queima-roupa na direcção dos pivots com semblante de Estado ou com ar de privada/de comentadores de aparência contestatária ou de bobos W.C.
Limpemos o écran do Sistema com sabão Radical. Para grandes males, grandes remédios Deixemos de dizer: É a hora do noticiário. Não. É a hora do propagandiário. É ur(gente) que cada cidadão do mundo tire um curso intensivo de minas/armadilhas/espingardas com mira telescópica. Precisamos de um Diploma de Atirador Multimédia/de Unidades Móveis de Glo(balística). Assim, embora dispensando à TV a atenção devida ao estatuto de instrumento-mor de clonagem de seres humanos em carneiros, jamais deveremos descurar a Rádio/Imprensa escrita/oferta livreira/as redes-net. Adaptemos a cada produtor/produto a especificidade da carga balística/do alvo certeiro. Na nossa viseira deveremos, sem grandes compassos de espera, actualizar as estatísticas: somos um país do pelotão da frente em número de consumidores de resíduos audiovisuais e de relva de estádio e somos um país da lanterna vermelha a consumir livros e, quando consumimos, tendemos para a Literatura das Doenças Infantis do Capitalismo/dos Chiclets Culturais de Hipermercado. Best-seller, na generalidade, quer dizer Linha Editorial de Cabeleireiro.
No entanto, como consumidores, deveríamos promover a organização da resistência pessoal/nacional/global, corporizável num novo tipo de associativismo, a que daremos um nome neo: DECOMÉDIA.3 Como? Desde já, disparando o telecomando/sintonizador/abandonando nas bancas e prateleiras o lixo do Sistema. Desde já, usando máscara no mercado audiovisual e luvas no mercado impresso/abordando relutantemente qualquer produto das ETAR`s do Poder/Saber. Desde já, cooperando na formação de novos conteúdos/novos públicos, pois se nos mantivermos como escaravelhos-bosteiros, arrastando os detritos da Sociedade da Abundância e se não ampliarmos o Levantamento de Rancho, restaremos na Pré-História Alimentar das Cons(ciências).
Arrojemos, na primeira aula de ginástica cívica, um Livro Proibido e outras publicações marginais contra os vazadouros digitais/parabólicos/por satélite. Façamos um esforço para não ofender demasiado a vista com a Imprensa de Referência/Sarjeta, faces do mesmo sujeito, o capitalismo selvagem, que finge comer com faca/garfo/guardanapo, fazendo, um, as necessidades debaixo da mesa/outro, em cima da mesa. Não consumir é uma opção de grande ascese democrática. Os telespectadores/radiouvintes/leitores só ganharão em não acumular resíduos no Sistema nervoso central. A Declaração de uma Greve Geral por tempo indeterminado a produtos informativos/culturais avariados talvez se revele uma Forma Superior de Contestação. Haverá que exaltar a Ideal Liberdade de Imprensa e problematizar a Real Liberdade de Empresa. Esta última tão receptiva a choques tecnológicos como avessa a choques sociológicos.
Por outro lado, a auto-legendada Classe Jornalística não deve ficar à espera de um questionamento ao retardador e do exterior. A Comunicação é Social mas também comporta uma dimensão de Sector e uma dimensão de actor. Existem volumes de dossiers atirados pelo patronato privado/estatal para a berma da estrada das negociações. Existem atropelos à Liberdade de Imprensa e ao Pluralismo que davam para congestionar um Tribunal de Delitos Censórios-Laborais. A Comunicação Social está a pedir um buzi(não). Alguma da energia do pseudo-jornalismo musculado da Nossa Praça faria bem em ser aplicada em causa própria. E tem prementes/pungentes motivos face às condições profissionais/assistenciais. Seria uma excelente cacha acordarmos com uma vaga de inconformismo vinda de dentro. Teremos, contudo, de manter a expectativa em limiares típicos de uma classe que só é francamente mobilizável quando os motores sociais aquecem o ambiente e se desencadeiam disputas de amplificadores. As associações ambientalistas deveriam integrar, sem tibiezas, na sua Agenda, a maioria das publicações periódias e não-periódicas e das emissões sonoras e visuais: para além das mentes, quantas florestas não são devastadas e quantas atmosferas não se degradam com as edições do Sistema?
Há, entretanto, que conferir significado a uma concertação/direcção de pequenos passos. O tempo não está para conversões em massa mas para conversões à massa. O que leva uns a entregar-se ao inimigo/outros a enveredar pela resig(nação). Atitudes que podem resolver aspirações ou cobrir indolências particulares/esconder amarguras idealistas mas que nada contribuem para um ab(anão) nos recintos do publicado e dos públicos. Contribuir para um meio ambiente mais saneado implica uma auto-desintoxicação mediática e um desinquinamento das fontes. Seria bem necessário um Protocolo de Quioto para atenuar a carga tóxica do Planet da Informação. Mas quem o celebra? Não poderemos confiar na grande maioria dos Estados nem na grande maioria dos empresários nem na grande maioria dos assalariados nem na grande maioria dos infogaseados. Como é do contudo move-se de Galileo Galilei, evoluir-se-á do consenso esmagador para o consenso emancipador, a partir de Pequenas Células de Infocidadania/Redes de Contra-Projecto.
Eis o Estado da Nação dos Onze.
Os Donos do Showinfo passeiam-se sobre a espinha dorsal de numerosos red(actores) – chiens de garde que se reviram com as cócegas ventrais. São mesmo sujeitos para fingir que nada têm a ver com o retratado/cadastrado. É com este Jornalismo Ordeirista & Diversionista que temos de nos haver em todos os debates/combates. É com um ambiente político-jurídico cada vez mais criminalizador das opiniões anti-sistémicas e da investigação de fundo que teremos de nos posicionar como cidadãos-consumidores. De certa maneira/havia mais liberdade de Imprensa no fim do séc. XIX/princípio do séc. XX em Portugal do que no fim do séc. XX/princípio do séc. XXI. Se ressucitasse/Rafael Bordalo Pinheiro passaria a vida de tribunal em tribunal, para não dizer de cadeia em cadeia. Provavelmente teria de se refugiar nas Caldas da Rainha a moldar falos e batráquios em nome do Zé Povo e da Patroika/antiga Pátria. De facto e de jure, a pressão penal paira no clima de trabalho e contribui para o défice de transparência. Quando é que Bordalo voltará a chamar porco ao rei? O honrado red(actor) terá de se precaver. Está de volta o Jornalismo de Entrelinhas. O ludibriado leitor terá de se defender e treinar a vista. Na verdade e na generalidade, se gastamos mais de dez minutos com um diário ou mais de quinze minutos com um semanário da Uniformédia, é de recear um problema de fixação doentia/amarração. Procuremos um consultório perscrutador/respeitador de segredos íntimos. Acomodemos as partes no divã e desvendemos o que nos vai na alma. Ler jornais poderá significar saber menos? A desconfiança tornou-se digna de caricatura.
Às vezes, a única coisa verdadeira num jornal é a data. 4
Neste panorama de mentiras e omissões programadas/dúvidas armadilhadas/verdades superficializadas, é ur(gente) pugnar por um Jornalismo Inqui(ético), que não se submeta a consensos esmagadores. Por este Jornalismo valerá a pena clamar e terçar como Ribine, sinalizador de leituras essenciais:
Ajuda-me! Dá-me livros, daqueles que um homem, depois de lê-los, não encontre sossego.5
Este Curso pretendeu alertar alunos/adestrar candidatos/desiludir estagiários/reescolarizar profissionais. Também teve a intenção de intranquilizar telespectadores/radiouvintes/leitores. Fez o possível por reintroduzir o espírito de verão no inverno do nosso descontentamento.6 Encerraremos o presente ciclo com um apelo/que gostaríamos de ver retransmitido nos aparelhos de Comunicação ao abrigo do Direito de Resposta.
Cuidado.
Acima de tudo e de todos/a lidar com a Televisão. Nunca será demais reflectir sobre o poder fascinador/regulador/normalizador/malfeitor deste equipamento. Foi transformado numa prótese biológica/numa arma ideológica e numa fábrica de teledependências. Tornou-se sofisticada(mente) mediocratizada/mediocratizante. Os Espaços Retóricos & Cénicos do Sistema estão empenhados em transmitir/com abundantes e cativantes meios técnicos/a mesma coisa/defender a mesma causa com caras de cartaz ou fortuitos convidados, mais ou menos à mesma hora. O telespectador já não suporta o rancho do dia nem os enlatados da noite? Zapping. Mude-se para um canal dito Segundo. Poderá conter menos carga tóxica/até gratificantes surpresas. Mude-se para a Mezzo. Declare-se exilado político-musical. Zapping. Mude-se para as manhãs de domingo. As televisões também obrigam os inocentes a madrugar. Regresse ao parque infantil. É menos custoso suportar horários pobres do que horários nobres. Zapping. Mude-se para o National Geographic. Qualquer paisagem é menos hostil/qualquer selva é menos feroz. Zapping. Mude-se para a CNN. Ficará a saber o que pensa o patrão. Evite perder tempo com intermediários. Tempo é dinheiro. Money. Corte nos gastos.
Inscreva-se na RAMG/Resistência Anti-Mediática Global.
1. Pulitzer, Joseph (1847-1911). Jornalista-empresário.
2. Reigosa, Carlos, jornalista, escritor. Citação: in editorial Galaxia novidades: www. editorialgalaxia. com (Primavera/Verão ’07).
3.DECOMÉDIA/Defesa do Consumidor dos Média.
4.Veríssimo, Luís Fernando, jornalista, escritor (odiario.info, José Paulo Gascão, 24/05/2008).
5. Ribine, citado por Francisco Mangas, jornalista, escritor, Notícias Sábado/NS, 31/05/2008. Fonte original: A Mãe, Máximo Gorki (1868-1936).
6. This is the winter of our discontent made glorious summer by this sun of York/Richard III/1592-1593/Shakespeare/The Winter of Our Discontent/1961/Steinbeck, John (1902-1968).
