Um Café na Internet
Ó D. Henrique! Ó Infante! Lá do fundo do tempo por diversas vezes Vossa Mercê interferiu com a minha vida. Não só com a minha mas, de geração em geração, com as vidas de milhões e milhões de portugueses. Sou apenas um borra-botas, porém atrevo-me a dar troco.
Um século depois da vossa morte, de vós e de vossos irmãos dirá Camões:
Ínclita geração, altos Infantes.
Ínclita ou ilustre geração? Seja! Nada a opor… Mas de Vossa Mercê, nomeadamente, dirá ainda Camões:
Assim fomos abrindo aqueles mares,
Que geração alguma não abriu,
As novas Ilhas vendo e os novos ares
Que o generoso Henrique descobriu;
(…)
Generoso? Será? Veremos…
Cerca de 1906 José Malhoa, em pintura no teto do Museu Militar de Lisboa, colocará Vossa Mercê nos rochedos de Sagres a contemplar as ondas, a mirar o longe, a meditar. Chamará à obra “O Sonho do Infante”. Vossa Mercê pode ser isto ou aquilo mas, se bem vos conheço, lá contemplativo é que não sois. Romantismos do Zé Malhoa…
Pouco mais de quatro séculos depois da vossa morte, de vós dirá também Fernando Pessoa:
Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.
Deus quis que a terra fosse toda uma,
Que o mar unisse, já não separasse.
Sagrou-te, e foste desvendando a espuma,
E a orla branca foi de ilha em continente,
Clareou, correndo, até ao fim do mundo,
E viu-se a terra inteira, de repente,
Surgir, redonda, do azul profundo.
Quem te sagrou criou-te português.
Do mar e nós em ti nos deu sinal.
Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez.
Senhor, falta cumprir-se Portugal!
Falta cumprir-se Portugal? Achais que sim, essa também é a vossa opinião? Na segunda metade do sec. XV Nuno Gonçalves pintou os chamados painéis de S. Vicente e neles colocou Vossa Mercê em primeiro plano. Em mil novecentos e trinta e tal o António Ferro, um sempre-em-pé metido a Ministro da Propaganda do fascismo português, entre os muitos figurantes desse antigo políptico descobriu um gajo com a tromba exata do Salazar. Estou a ver o ditador a esfregar as mãos de contente: os painéis de S. Vicente afinal são como a Vida, como a História, ontem como hoje. Ontem, em gabinete, o Infante a mandar as caravelas à descoberta do mundo. Hoje, em gabinete, Salazar a mandar Portugal cumprir o seu destino glorioso. Não foi por acaso, antes para cimentar identificações, que o ditador acabou por atribuir à Mocidade Portuguesa (organização para-militar fascista) a mesma bandeira que foi desfraldada nas caravelas de Vossa Mercê…
Quando, na adolescência, sacudi e me libertei do fascismo, daquele vesgo nacionalismo que andava a espartilhar-me, Vossa Mercê, ó D. Infante, comeu por tabela porque a vossa figura andava colada à propaganda salazarista. Dessa colagem não tereis culpa, abusaram de vós, sei disso muito bem. Mas sei com a razão, não com o sentimento. O que é que Vossa Mercê quer? Maldades que nos fazem quando somos criancinhas, até à velhice ficam a remoer aqui no peito… De qualquer forma, antes que eu bata as botas e passe para o Além, tentarei obter ainda o vosso retrato de corpo inteiro. Sem mitificações, sem mistificações…
