Site icon A Viagem dos Argonautas

O ESPELHO – por Fernando Correia da Silva

Um Café na Internet

Em 1975 ocupámos a gráfica abandonada pelo patrão e mandámos a notícia para os jornais. Dias depois eu disse ainda: – Coitadinho do sr. Guerra, anda mesmo morto de saudades. E se o mandássemos para o Brasil a consolar o patrão? Alminhas piedosas impediram que ele seguisse. Quem seguiu fui eu, mas para cima. Num plenário deram-me um pontapé no cu e alçaram-me ao poleiro. Eu bem tentei esvoaçar, dar o pira, o desconcerto do mundo, etc. e tal, mas cortaram-me as guias e disseram: – Quem fica a coordenar isto tudo é o Chico Mata-Cães. És tu, Chico, e não se fala mais nisso. E fiquei, que remédio. Mas vinguei-me: Ao fim do primeiro mês de trabalho só havia dinheiro para pagar metade do valor do antigo salário de cada um. E começaram a azoar-me: – Ó Chico, olha que eu tenho quatro filhos… – Ó Chico, olha que eu tenho a mulher doente… – Ó Chico, isto assim não pode ser… E eu, na minha: – Quem não trabuca, não manduca. Quereis manducar? Esgalhai e arranjai de trabucar. Mas depois comecei a ouvir uns zunzuns: que o melhor era pedir a intervenção do Estado e outras soluções milagreiras, o que a malta queria era o taco ao fim do mês, e que o Partido apoiava rebebéu-rebebéu, fui ao jardim da Celeste giroflé-flé-flá. Deu-me cá uma veneta: agarrei no espelho grande que estava na antiga sala de visitas, coloquei-o no meu gabinete e, por cima dele, um grande título: O PATRÃO. E quando vinham chatear-me eu apontava-lhes o espelho e dizia: – Eh pá, eu cá não posso fazer nada. Mas fala ali com o PATRÃO. Acharam graça e sossegaram. Por uns tempos.

In MATA-CÃES

Exit mobile version