PATRÃO LOPES – por Fernando Correia da Silva

Um Café na Internet

 

 

 

Ó Joaquim Lopes: de Olhão vens para Lisboa e depois para Paço de Arcos. Ali te fixas como remador e mais tarde como patrão do salva-vidas. Um salvamento atrás do outro mas aquele que te dá fama nacional, e até internacional, ocorre em 1856:

   Os Fortes de S. Julião e do Bugio disparam tiros de alarme, a escuna inglesa Howard Primrose encalhara nos baixios da barra do Tejo. Tu, mais o teu filho Quirino e uns tantos voluntários, logo saltam para a falua. Seis horas a remar e não consegues aproximar-te da escuna, a falua é muito pesada para manobrar por entre baixios. A essa conclusão já tinham chegado os tripulantes de um escaler da Alfândega e de um vapor de guerra. Regressas a Paço de Arcos e vais buscar a tua canoa de pesca, embarcação bem mais ligeira. Mais 6 horas e a escuna, sob o impacto das vagas, já ameaça partir-se ao meio. Mas, finalmente, vocês conseguem resgatar o comandante e mais cinco marinheiros. Apenas morreu um que, apavorado com o navio a destroçar-se, se atirara precipitadamente à água.

  Desembarcas os sobreviventes na estação fluvial de Belém e contas as peripécias  ao Comandante da corveta Oito de Julho. Também lhe passas os nomes dos teus camaradas salva-vidas.

  Pela tua bravura o governo britânico atribui-te a Medalha de Prata da Rainha Vitória e à tua marinhagem dá umas libras de ouro para aquecer os bolsos…

  E as autoridades portuguesas? Não piam, ignoram o salvamento… Circunstância que provoca comentários da imprensa. É então que um oficial do Bugio, metido a esperto, se apresenta como o herói do feito, pois fora ele quem avistara a escuna encalhada e dera sinal de alarme. História logo revelada pelo Jornal do Comércio. Em consequência, El-rei D. Pedro V atribui ao espertalhão a Torre e Espada, a mais importante condecoração portuguesa. Mas passados dois anos, o mesmo Jornal do Comércio repõe a verdade publicando os relatos da tripulação da escuna inglesa e do Comandante da corveta portuguesa Oito de Julho. Por forte pressão da imprensa, é-te por fim atribuída a medalha de prata de D. Pedro e D. Maria.

  Também é organizada uma subscrição pública para compensar financeiramente o teu heroísmo. Mas tu recusas, tu devolves, tu refilas:

  – Quem tem que me remunerar é o Governo, não é o Povo, porque eu não dependo nem quero depender da caridade pública…


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