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EDITORIAL: PRIVATIZAR, LIQUIDAR

Diário de Bordo - II

 

O mais impressionante desta fúria privatizadora do grupo chefiado por Passos/Portas/Gaspar é a sensação de que a privatização é um fim em si mesmo, não um meio para se chegar a um ponto, a partir do qual se poderia eventualmente relançar um plano de crescimento, de desenvolvimento, conducente a uma situação mais favorável. O que se vislumbra neste processo vertiginoso é a vontade de chegar a um estado de coisas, em que não seja possível voltar atrás. Agora foi a concessão da ANA ao grupo Vinci por 50 anos. Daqui a 50 anos o que restará dos aeroportos portugueses? No acordo parece que se prevê que a concessionária terá de apresentar ao governo português um projecto para um novo aeroporto, caso a Portela atinja certos níveis de utilização. Não é difícil vaticinar que não haverá novo aeroporto, mesmo com uma forte pressão sobre a Vinci.

Os acordos a longo prazo com empresas privadas ou privatizáveis (pense-se nas Estradas de Portugal) fazem parte dessa estratégia de não retorno. Noutros casos, como o dos Estaleiros de Viana do Castelo, as medidas tomadas levaram à paralisação pura e simples da empresa, o que conduzirá inevitavelmente ao encerramento da empresa ou à sua privatização a baixo preço. Mas o objectivo é o mesmo.

Mais do que a tal destruição criativa, preconizada por Schumpeter, ou outras doutrinas semelhantes, aquilo que estamos a sofrer é um processo de concentração de riqueza, comandado por pessoas ansiosas de não voltarem a ver o seu estatuto abalado. As pessoas estão aí, e são bem conhecidas. Agora enquadra-as a oligarquia financeira internacional, bem apoiada pela burocracia europeia. Nalguns países, como a Rússia, que sofreram processos semelhantes, houve indivíduos ou grupos nacionais que conseguiram controlar parte dos resultados da destruição de Estado. Em Portugal nem isso acontecerá. E pretende-se que os trabalhadores e pensionistas, em qualquer dos casos, paguem o grosso da factura, apesar de Passos/Portas/Gaspar encherem a boca com a rábula de que os sacrifícios são para todos.

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