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OS ENDIREITAS, de Marcos Cruz

Um Café na Internet

 

 

 

 

Tolstói entendia a depressão como a distância entre a consciência do indivíduo e a sua praxis. Crendo nele, não custa aceitar que filósofos, artistas, românticos e outros pescadores de águas fundas estejam entre os que mais arriscam a falência anímica. Uma sociedade como a de hoje, que evapora o longo alcance na câmara ardente da sobrevivência, não põe lugar na mesa para espíritos indagadores da sua própria natureza.

Mais fácil, pois, do que tirar o apetite a quem depende da fome para existir é fazer da fome a sua consciência. E assim, para esses, acaba-se a depressão, pelo menos enquanto houver comida.

Que, nos tempos mais recentes, filósofos, artistas, românticos e outros pescadores de águas fundas se tenham convertido a esta receita, eis a parte mais complicada de mastigar. A verdade, porém, é que de diferentes instâncias autenticadas do saber emergem tendências alérgicas a uma defesa da ética e da moral como elementos estruturantes da consciência.

Encostada às cordas desde o fim da Guerra Fria, a esquerda tem sido o alvo privilegiado desses socos retardatários, talvez porque a conjuntura actual seja propícia a que ela reanime. Então, mal ganha expressão social o apelo aos valores humanos, de pronto se levanta um modelo de intelectual muito em voga, intitulado de politicamente incorrecto, reduzindo o fenómeno a um “regresso da mentira da esquerda”. Com este conceito, pretende relembrar-nos de que enquanto uma pessoa de direita diz o que sente, uma pessoa de esquerda diz o que gostaria de sentir.

Trata-se de um discurso cujo fogo alastra tanto mais depressa quanto a palha é o pão dos nossos dias. Mais ai de quem diga uma coisa destas, mesmo não sendo o que gostaria de sentir. Vem imediatamente o veredicto: “As pessoas de esquerda acham-se moralmente superiores”.

Eu não vejo as coisas em termos de esquerda e direita. Penso o que penso. E sou, claro, parte do problema. Quando digo que a palha é o pão dos nossos dias, ainda sinto vestígios dela entre os dentes. Mas há uma coisa que eu não confundo: o burro com a burrice.

Ora, quem preconiza uma sociedade baseada num conceito de honestidade segundo o qual cada indivíduo se comporta de acordo com aquilo que sente deve assumir claramente a mensagem que transporta: se nascemos burros, burros devemos continuar.

A mim parece-me que, mais do que se acharem moralmente superiores, as tais pessoas de esquerda acham moralmente superiores os ideais por que se sacrificam até à depressão. E isso, sob um prisma individualista, faz delas burras. Mas talvez seja útil avisar quem queira produzir juízos nesse plano de análise que ele não se ajusta minimamente ao contexto em que todos vivemos.

A civilização, tanto quanto a vejo, é um conceito evolutivo que visa não apenas harmonizar as vivências individuais e colectivas de um todo social, mas também criar as condições mais propícias ao seu desenvolvimento. Ser civilizado é, pois, defender a espécie.

Antes, porém, de defendermos alguma coisa, devemos imaginá-la, concebê-la, querer senti-la. Do meu ponto de vista, uma sociedade em que cada um diz e faz apenas o que sente tem um valor inestimável enquanto utopia. Não seria sequer o tecto da casa humana, era o céu. Agora, apontá-la hoje como terapia instantânea – no toca-e-foge cobarde de quem superiormente postula que “o mundo não tem solução” – é o retrato fiel do pensamento individualista contemporâneo: curto, desintegrado. Para se ter o mundo na mão, tem de se dar a mão ao mundo. Para amar é preciso amar.

A mim, não há depressão que me desvie do caminho.

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