Transcrito, com a devida vénia do jornal FRATERNIZAR com autorização expressa do autor, o argonauta Padre Mário de Oliveira, Presbítero do Porto
É dramático, mas a verdade é que vamos já na segunda década do terceiro milénio do cristianismo. E mais dramático, ainda, é que continuamos a orgulhar-nos disso, em lugar de nos envergonharmos. Em verdade, em verdade lhes digo: É imperioso sairmos definitivamente do cristianismo, e darmos um salto qualitativo em frente. Concretamente, é imperioso sairmos do reino do animal racional e do seu domínio total e absoluto uns sobre os outros e sobre a Natureza – o cristianismo – e ousarmos dar corpo, em todo o planeta, ao reino dos seres humanos consciência afectiva e cuidado uns pelos outros e pela Natureza, uns com os outros e com a Natureza – o pós-cristianismo, que, em boa verdade, é um antes, pois é o regresso a Jesus, o ser humano pleno e integral nado e criado em Nazaré e assassinado em Abril do ano 30 em Jerusalém pelo próprio cristianismo, ainda antes deste ter sido formalmente constituído e fundado pelos próprios acompanhantes de Jesus, judeus como ele, mas antípodas dele. E não muito depois de todos o terem traído e entregue aos dirigentes máximos do judaísmo, conluiados, por sua vez, com os representantes do império romano ocupante, o Cristo vencedor de turno.
Precisamos, hoje, de muito discernimento e de muita sabedoria. Porque o cristianismo nunca se diz o que efectivamente é. Sempre se apresenta às populações e aos povos, sob a máscara da santidade, da religião do Livro, do humanismo, da dedicação até à perda da própria vida, da caridade, do amor aos pobres e a toda a espécie de vítimas, uma espécie de Madre Teresa de Calcutá, à escala global, e logo, estranha e rapidamente, beatificada pela maior igreja cristã do mundo, a do papa monarca absoluto, infalível e invicto, o institucionalmente, santo por antonomásia, que, de resto, outra coisa não quer dizer o título, Sua Santidade, ou Vossa Santidade, o Papa.
Porém, se analisarmos bem, dois mil anos de cristianismo são dois mil anos de metódico e progressivo domínio total e absoluto do animal racional sobre as populações e os povos do planeta e sobre o próprio planeta, o horror dos horrores, sempre justificado e legitimado pela lei do vencedor, do monarca absoluto, numa palavra, do Cristo invicto, o mesmo da Casa real de David, um rei, miticamente, santo, mas existencialmente assassino. Um Cristo invicto que, com a fundação do cristianismo, passou a ser também denominado Jesuscristo, para as multidões em geral, eternamente crucificado na cruz, multiplicada por biliões e biliões de outras cruzes, plantadas em tudo quanto é sítio, até no pescoço das crianças, e que todos os anos é obrigado a nascer, a morrer na cruz e a ressuscitar ao terceiro dia, nunca antes, nunca depois, só mesmo ao terceiro dia, e para, daí a meses, voltar a nascer, a morrer na cruz e a ressuscitar ao terceiro dia, num ciclo de horror que se arrasta há já dois mil anos. E tudo isto, só por causa de nós e por causa da nossa salvação, que assim reza o Credo de Niceia-Constantinopla, aprovado e imposto a todo o império romano, por Constantino, imperador. Até hoje.
São duas, as máscaras com que o cristianismo sempre se nos apresenta. A do vencido sofredor por nós e por nossa salvação; e a do vencedor, também por nós e por nossa salvação/glorificação/divinização, por isso, nunca mais humanos!!! Com um Credo assim, está justificado à partida e aceite sem a mínima contestação, tanto a existência do sofrimento e de vítimas humanas aos milhões, para cúmulo, tudo apresentado como valor redentor e salvador; e está também justificado e aceite, sem a mínima contestação, a existência do Poder vencedor do animal racional. Uma e outra realidade que, neste início de terceiro milénio, se nos apresentam munidas de meios altamente sofisticados e eficientes, sempre em imparável crescendo. Cresce assustadoramente o sofrimento e o número de vítimas, cientificamente, produzidas, e cresce assustadoramente o Poder vencedor, cruel e sádico. É um só e mesmo Cristo, com duas faces: a do Cristo sofredor e redentor, identificado, ideológica e teologicamente, com todas as vítimas humanas, eufemísticamente, chamadas cristos sofredores ou povos crucificados; e a do Cristo poder monárquico absoluto, infalível e invicto, identificado, durante os séculos da Cristandade, com o Papa de Roma, e, hoje, com a alta finança global, também ela, munida de cérebros e de meios, os mais sofisticados e os mais eficientes, sempre em crescendo. Bem pode, pois, dizer-se que o cristianismo religioso e laico/ateu é a grande Besta do Apocalipse, em todo o seu esplendor de holofote que nos cega, e, porque nos cega, consegue atrair a ele todos os povos, tribos, nações, artistas de todo género que, assim, são pura e simplesmente, comidos, triturados, reduzidos a mercadorias e a vermes rastejantes, de luxo, uma minoria, de lixo, a maioria.
Dizer Cristianismo, é dizer o incontável número de vítimas sofredoras, crucificadas, olhadas e apresentadas como redentoras do mundo, e, ao mesmo tempo, dizer o verdugo/algoz/carrasco que as fabrica, concretamente, o Poder invicto, monarca absoluto que nada, ninguém pode contestar, contraditar, julgar, menos ainda, condenar. Apenas reconhecer, obedecer, servir, adorar. Há um só cristianismo, o do animal racional, religioso e laico, ao mesmo tempo. Que neste início do terceiro milénio, é omnipresente, omnisciente, omnipotente. E dá pelos mais variados nomes, conforme os povos, as nações, as culturas, as regiões do planeta. São muitos, os nomes, mas sempre o mesmo Cristo/Poder. O Poder vencedor do animal racional, capaz de falar todas as línguas do planeta. No mundo ocidental, dá mais pelos nomes de cristianismo, de judaísmo, de islamismo. Fora do mundo ocidental, dá por outros nomes. Sob todos os nomes, sempre a mesma Perfídia do animal racional, ferozmente, odiento, explorador, opressor, divino, por isso, homicida, genocida, geocida, como o Deus da Bíblia e do Alcorão, sempre pronto a declarar e a promover guerras santas, cruzadas, só para, desse modo, alargar mais e mais o seu domínio.
Este cristianismo global do animal racional sabe que só mesmo a Fragilidade Humana consciência afectiva, presença politicamente maiêutica e cuidadora, vasos comunicantes, o derruba e garante sucessivos Hoje sem ocaso, plena e integralmente humanos, às populações do planeta. Por isso, trabalha sem descanso para a seduzir, a atrair a ele, sob mil e uma promessas, todas mentira. E, se não consegue, mata-a. De modo cruento, como a Jesus, ou incruento.
Esta é, por isso, a hora de Jesus, o de antes do cristianismo, plena e integralmente, humano, em permanente luta política duélica desarmada contra o sofrimento individual e estrutural e todo o tipo de causas/justificações ideológicas, filosóficas, cristãs, religiosas, pseudo-científicas, teológicas que o legitimam e justificam. A nossa hora. O Cristo tem de implodir e ceder o lugar a Jesus. O animal racional tem de implodir e ceder o lugar aos seres humanos, fragilidades maiêuticas, cuidado uns com os outros e com o planeta, vasos comunicantes. Quem puder entender, que entenda. E seja consequente.
