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UMA REVOLTA DE HÁ 122 ANOS – por Carlos Loures

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A posição da diplomacia portuguesa  ante o ultimato britânico de 1890, na sequência da publicação do Mapa Cor-de-Rosa,  deixara um profundo ressaibo de humilhação, nomeadamente entre os militares. À época, a Grã-Bretanha era a superpotência mundial e as pretensões portuguesas de um território entre a costa atlântica e a do Índico, unindo Angola a Moçambique, colidiam com o projecto inglês de uma linha férrea entre o Cairo à Cidade do Cabo  – projecto que também nunca se concretizou. De qualquer dos modos, a arrogância britânica era apoiada numa força bélica poderosa e o bombardeamento, a partir de navios de guerra, de Lisboa e do Porto, foi uma ameaça imediatamente formulada. pelos nossos «mais antigos aliados».

Os portugueses estavam imbuídos de um sentimento de perda que, aliás, atingia toda a sociedade – a nostalgia da grandeza do império. Os feitos lusitanos de outrora – estrofes de “Os Lusíadas” adornavam discursos grandiloquentes… O povo em geral era contagiado pela onda de patriotismo exacerbado e ofendido – a Travessa dos Inglesinhos, no Bairro Alto, foi substituída por Travessa dos Ladrões, os inglese residentes em Portugal eram insultados, os barbeiros negavam-se a atendê-los. Rafael Bordalo Pinheiro, além das suas mordazes caricaturas, produzia na sua fábrica das Caldas penicos com a Union Jack no fundo – um êxito comercial. O mesmo aconteceu aos capachos com a bandeira britânica…

O Governo e o Rei (D. Carlos que subira ao trono no ano anterior), eram responsabilizados pela ausência de uma resposta violenta ao Ultimato.. Diga-se que um governo republicano não poderia ter reagido de forma muito diferente, pois a desproporção dos meios militares era muito grande. Talvez pudesse ter declarado ao mundo que cedia perante a força e reafirmando a razão que nos assistia, a qual, como já se disse, se baseava no pressuposto de uma grandeza que se perdera em Alcácer-Quibir,  três séculos atrás. Os comícios sucediam-se. A Portuguesa foi escrita para uma peça teatral e logo cantada de boca em boca – Onde se diz “Contra os canhões, marchar, marchar!”, estava originalmente, “Contra os bretões, marchar, marchar!” Houve uma reunião de oficiais que afinou por esse diapasão de ódio à soberba britânica e repugnância pela cobardia do governo e do rei.

Foi neste clima que o directório do Partido Republicano Português, liderado na altura por Elias Garcia, se mostrou favorável à preparação de um movimento insurreccional. Desde 1880, quando assumira a organização das comemorações do tricentenário de Camões, que o Partido Republicano vinha crescendo e ganhando apoiantes em todos os segmentos da sociedade. Todos os desaires da monarquia eram capitalizados pelo PRP. A forma cobarde como o rei e o Governo tinham engolido a humilhação do Ultimato, criou um ambiente favorável a uma acção militar. O levantamento militar de 31 de Janeiro de 1891, no Porto, foi a primeira tentativa de derrube do regime monárquico pela força. Porém, com alguma precipitação, sem deixar que os preparativos se consumassem, a classe de sargentos pressionou os responsáveis locais e a revolta eclodiu extemporaneamente.. Haviam chegado ao Porto ordens de transferência que afectavam alguns oficiais e, sobretudo sargentos, o que levou a um descontentamento quase generalizado. E as coisas precipitaram-se. O capitão António Amaral Leitão, foi o líder deste levantamento; outras personalidades – Sampaio Bruno, João Chagas, Basílio Teles, Aurélio Pais dos Reis e o alferes Rodolfo Malheiro, estiveram também ligadas ao movimento.

Pelas três e meia da manhã de 31, o Batalhão de Caçadores 9, comandado por subalternos, posicionou-se junto do Regimento de Infantaria 18, no Campo de Santo Ovídio (hoje, Praça da República). Tendo aderido à revolta, o coronel Meneses de Lencastre, comandante de Infantaria 18, não permitiu que os efectivos saíssem, mantendo-se neutral. O alferes Rodolfo Malheiro, assumiu o comando. Nas proximidades da Cadeia da Relação, postaram-se o Regimento de Infantaria 10 e uma companhia da Guarda Fiscal, sob o comando do tenente Coelho. Às seis horas, os cerca de 800 amotinados desceram a Rua do Almada e tomaram posições na actual Praça da Liberdade, que à época se chamava de D. Pedro IV, em frente do antigo edifício do Município. Alves Veiga, responsável civil do movimento, proclamou a República em nome do Governo Provisório, lendo os nomes que o compunham, e hasteou, às sete da manhã, uma bandeira verde-rubra do centro Democrático Federal 15 de Novembro do PRP. Houve foguetes e a fanfarra militar tocou A Portuguesa.

A multidão, eufórica, subiu a Rua de Santo António.  O objectivo era o tomar a estação dos Correios e Telégrafos da Praça da Batalha. Mas, entrincheirada no escadório da Igreja de Santo Ildefonso, no topo da rua, estava a Guarda Municipal que abriu fogo de metralhadora sobre a multidão, causando vítimas entre os militares e os civis. Em pânico, os populares tentam regressar à Praça de D. Pedro. A bateria de artilharia da Serra do Pilar começou a disparar sobre o edifício dos Paços do Concelho. Morreram 12 pessoas e cerca de 40 ficaram feridas. Às nove da manhã, consumava-se a derrota e os responsáveis em fuga..

Os julgamentos processaram-se em navios da Armada, fundeados ao largo de Leixões. Mais de 500 militares e numerosos civis compareceram a Conselho de Guerra. Houve duas centenas de condenações, com penas  entre os 18 meses e os 15 anos de prisão. No entanto, sendo uma derrota militar, o movimento de 31 de Janeiro constituiu uma vitória histórica, transformando-se num símbolo, para os republicanos que, dezanove anos depois triunfariam.

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