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CHAMARAM-LHE PORTUGAL – 6 – por José Brandão

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A CONQUISTA DE AL-GHARB

Nas suas empresas contra Leão, Afonso Henriques, batido sempre como guerreiro, conseguira desforrar-se dos desbaratos com a astúcia. Das duas faces que apresenta a história da fundação da monarquia, vimos a primeira: resta-nos ver a segunda. Assistimos aos actos do político; vamos assistir agora às fecundas empresas do conquistador.

O príncipe trazia para a guerra as manhas da corte, sem prejudicar a firmeza necessária, a bravura, o sangue-frio e a audácia. Com este conjunto de elementos dava um carácter original à guerra (novo genere pugnandi). Ia de noite, às escondidas, (furtim), como um chefe de bandidos, em assalto a algum vilar, fortificado, no pendor de uma serra distante (quasi per latrocinium). Assim investiu e tomou Santarém. «Assim conquistou a maior parte dos castelos das províncias de Belatha e Al-Kassr, este inimigo de Deus!» diz o cronista árabe. O ponto de ataque era de antemão escolhido. Por uma noite escura e tempestuosa punha-se a caminho com um troço de homens resolutos: dir-se-ia uma quadrilha de salteadores. Galgavam rapidamente as distâncias e chegados ao destino, apeavam-se, aproximando-se caladamente dos muros. Afonso Henriques, encostado à escada, era o primeiro a subir com o punhal preso entre os dentes. Parava, escutava, com o olhar agudo, a respiração suspensa: afinal pousava ansioso o pé entre as ameias, e, apertando o punhal nas mãos, cosia-se com os muros. Na sombra não o distinguiam. Caía como um falcão sobre a sentinela, e apunhalava-a antes que ela pudesse tugir um grito. Entretanto os companheiros iam subindo. O bando reunia-se na esplanada, armado e resoluto, e ao grito de «Santiago!» caía sobre a guarnição adormecida e trucidava-a. «Tal foi o modo por que este inimigo de Deus tomou a maior parte dos castelos das províncias de Belatha e Al-Kassr!»

Havia porém ainda outra maneira de guerrear cuja invenção não pertence a Afonso Henriques: era o sistema de algaras, fossados ou correrias, através dos extensos territórios fronteiros. De um lado e de outro, numa zona mais ou menos larga, conforme o ordenavam a constituição geográfica e a estratégica, desdobravam-se as charnecas periodicamente assoladas. Aqui e além, apertadas em cintos de muralhas, ficavam as povoações, em cuja volta, como oásis, apareciam malhas de terrenos agricultados. Confiar ao nervo e à velocidade dos cavalos o transpor as passagens perigosas desses desertos onde as surtidas dos castelos podiam cortar a retirada, e cair impetuosamente sobre as searas, incendiando-as, sobre os rebanhos, roubando-os, sobre os tardívagos, matando-os; talando os campos, cortando as árvores, incendiando as casas, e voltando rapidamente com as presas feitas: tal era o processo igualmente seguido por cristãos e sarracenos; reduzido já a um sistema de invasões anuais na época das colheitas e contado como principal recurso financeiro da rude economia do tempo.

Se a tomada de Santarém (1147) é um tipo da primeira espécie, a batalha de Ourique, ou Orik (1139), é o tipo da segunda. A fortuna acendia a audácia de Afonso Henriques, que levou o fossado por entre as fortes posições de Santarém e Alcácer, deixando Palmela, Sintra e Lisboa na retaguarda: atravessando o Tejo, para ir talar os campos de Chelb ou Silves, empório sarraceno da Espanha lusitana. Poucas vezes, porém, um fossado era apenas uma correria e um saque. As guarnições dos castelos passavam sinal, combinavam surtidas; e o episódio de uma batalha acompanhava quase sempre a obra de depredação. A batalha de Ourique, qualquer que tivesse sido a importância numérica dos combatentes, deu a Afonso Henriques uma vitória que o encheu de ânimo para entrar em campanhas mais regulares e fecundas.

Os primeiros nove anos do governo do príncipe tinham sido absorvidos pelas questões leonesas, quando em 1137 uma invasão sarracena veio destruir Leiria, que ele erguera para defender Coimbra das súbitas investidas dos inimigos. Ourique desforrou-o do desastre, que o rei por outro lado remediava reconstruindo o castelo, então fronteiro do extremo sul dos seus Estados. Mas logo o muçulmano responde, voltando como uma onda que, alastrando o território cristão, vai rolando até os altos de Trancoso, deixando pela segunda vez derrubadas as muralhas de Leiria. Afonso Henriques consegue dominar a invasão, que retrocede ao abrigo da linha do Tejo; e retribui logo a visita com uma tentativa frustrada sobre Lisboa. Depois, aliado ao vali de Mértola contra o de Santarém, vai assolar os distritos de Mérida e Beja. Nos intervalos destas correrias, o rei ferira as batalhas do tratado de Zamora, e ganhara a vitória que lhe preparou o cardeal Guido.

O período de dez anos que está entre 1137 e 1147 oferece nestas guerras o aspecto de um movimento que oscila, como um pêndulo suspenso de um ponto que é Lisboa: invasões sarracenas para o norte, portuguesas para o sul do Tejo, instabilidade de resultado de ambas. O eixo deste movimento era evidentemente Lisboa e o sistema das suas linhas de defesa — Sintra-Almada-Palmela-Santarém. A conquista da linha do Tejo tornava-se a condição indeclinável, não já do alargamento, mas até da conservação da monarquia de Afonso Henriques.

Demasiado, porém, sabia ele que os recursos militares de que dispunha, se chegavam para os fossados anuais, se bastavam para conquistar quasi per latrocinium os castelos isolados, eram demasiado escassos para tentar empresa tão vasta como a da conquista do sistema de fortalezas que formavam o núcleo defensivo do centro do que foi depois o reino português. Na tentativa frustrada que fizera sobre Lisboa em 1140 fora ajudado por uma esquadra de Cruzados. As suas esperanças estribavam-se num auxílio dessa ordem: até porque, sem forças navais para entrar no Tejo — ainda então não havia marinha militar — seria absurdo tentar a empresa.

Entretanto, sete anos iam passados depois dessa primeira aparição dos Cruzados, sem que outros viessem proporcionar-lhe ocasião para realizar os seus desígnios. Impaciente, orgulhoso ainda com o resultado da correria de Beja (1145), seguro do lado de Leão pelas pazes de Zamora, forte pela confirmação do seu título, confiado na protecção papal — o sangue pula-lhe nas veias, e decide tomar Santarém (1147), à sua moda, isto é, por surpresa. Pela calada da noite apareceu à raiz das muralhas da vila. Puseram-se escadas. Subiu um furtivamente e abafou uma vela (sentinela); depois subiu outro, depois terceiro, «e depois que todos três foram em cima do muro, a vela que estava em cima do caramanchão, quando sentiu Mem Moniz que se ia alongando, disse-lhe: «Manahu!» e ele respondeu-lhe em aravia e fê-lo descer, e logo que foi em baixo cortou-lhe a cabeça e deitou-a aos de fora. E então eles puseram outra escada e subiram por ambas o mais toste que puderam, e foram tantos que se apoderaram do muro e britaram as portas por onde entraram el-rei e os que com ele foram. E desta guisa foi furtada a vila de Santarém aos mouros». O resultado correspondeu pois ao plano, e quem sabe se a temeridade teria arrastado o rei a prosseguir do mesmo modo contra Lisboa? Não foi, porém, necessário. Esse ano vieram os Cruzados por quem suspirava, e com eles meteu ombros à empresa.

A seguir – A Tomada de Santarém

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