CHAMARAM-LHE PORTUGAL – 30 – por José Brandão

D. Sebastião não tinha ouvidos senão para o bando de estouvados, temerários como ele; a guerra de África era uma corrida de javalis, como as de Pancas. A corte era um covil de intrigas, os cortesãos um bando de miseráveis, caquécticos, ou doidos, ou enfezados. Uns eram os aventureiros do bando de el-rei; outros os moles pintalegretes alfenados, que entravam nas salas encostados ao ombro dos pajens, arrastando o corpo, arrastando a fala, parecendo mulheres doentes de requinte; outros finalmente, os conselheiros velhos, miseráveis, como Martim Afonso de Sousa, o mais descarado de todos os «condottieri» da Índia, e D. João Mascarenhas, o herói de Dio, que vendeu Portugal como um Judas. Como haviam de perceber a heróica doidice do rei? Como haviam de sentir na face o ar quente do patriotismo de Camões?

Como D. João Mascarenhas insistia na sua reprovação, o rei mandou, por chacota, buscar médicos, para que decidissem se acaso o velho teria os brios acobardados pela velhice, ou o cérebro amolecido. Uma vez perguntara ao duque de Alba se sabia qual era a cor do medo. Estes modos atrevidos, insolentes e escarnecedores tinham desgostado todos os velhos, que se afastavam da corte. O cardeal ex-regente, ofendido, retirou-se; e a avó, a rainha D. Catarina, desatendida e só, fiava longas noites o linho da sua roca, as tristezas da sua alma, molhando amiúde os beiços quentes e secos do trabalho e da aflição. Assim, fiando, morreu a irmã de Carlos V, com a certeza da irremissível perdição do neto estremecido.

Além dos valentões, ou como ele temperados, ou que o adulavam, o rei só podia entender-se com os teatinos e jesuítas. Não era beato, como seu avô D. João III, nem a licença dos costumes, nem a própria irreverência já impressionavam; mas ficara-lhe na sua alma poética um quente misticismo para substituir o amor, condenado pela castidade tradicional cavalheiresca. Embriagava-se ao ouvir a história de Santo Inácio, que fora a Jerusalém para conquistar o sepulcro sagrado de Cristo. Passava horas esquecidas no convento de Almeirim com os frades, e manhãs inteiras, fechado a sós com o jesuíta Simão Gomes, a ouvi-lo discorrer. […]

O carácter anacrónico da educação cavalheiresca e mística do soberano era um dos modos por que se traduzia a loucura actual, de que padeciam tanto o rei como a nação. Os prudentes conselheiros, cheios de juízo, condenavam o herói, temerário como um doido, por não poderem perceber já nem a cavalaria, nem o misticismo — coisas passadas! Porém, esses mesmos sofriam de uma loucura diversa, mas abjecta: porque Martim Afonso mostrara na Índia ser um chatim; porque D. João Mascarenhas sujou as mãos com o dinheiro de Filipe II, fazendo-se seu corretor; porque o cardeal D. Henrique, inquisidor ferino, era um saco de fraqueza mole, a que, depois de morto, o povo condenou «a viver no inferno muitos anos».

Morto, D. Sebastião viveu por séculos na alma popular e assim realizou o moto que tomara para si de um verso de Petrarca:

Un bel morir tutta la vita honora» *

* Oliveira Martins, História de Portugal, pp. 262-270.

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