Site icon A Viagem dos Argonautas

ENTENDIMENTO – por Fernando Correia da Silva

Um Café na Internet

 

A Senhora D. Maria Correia Brito, esposa de Fernão Mendes Pinto, vem ao terraço da casa e convida-nos a entrar, a ceia vai ser servida. É senhora de respeito, mui formosa e gentil, e também muito nova. Terá uns quarenta anos e Fernão já passa dos setenta. Duas donzelas de trato afável sentam-se conosco à mesa, são as filhas do casal. Fazemos as nossas orações e logo atacamos a iguaria, peixe assado com couves e cebolas alouradas. 

Embora adoentado, vê-se que Fernão anda feliz. Depois de tantas aventuras, assentou no casamento. Quando em 1558 retornou ao Reino, logo meteu requerimento à Coroa para obter recompensa pelos seus muitos trabalhos no Oriente. Mas só no mês passado, ou seja, em Janeiro de 1583, por influência dos dois jesuítas que vieram inquiri-lo sobre a vida de S. Francisco Xavier, é que obteve de El-Rei a ambicionada recompensa. Por ela esperou portanto 25 anos… Não tivesse ele trazido do Oriente alguns meios de fortuna (que lhe permitiram, inclusive, casar e comprar esta quinta do Pragal) e teria, certamente, morrido à fome.  

Bebe um último copo de vinho, olha com desvelo para a sua esposa e para as duas donzelas suas filhas, mas creio que a maior esperança da sua vida é ver agora impressa a Peregrinação, a sua imensa obra, cerca de mil páginas. E ele diz, como se estivesse a ler o meu pensamento: 

– Em tempos idos, o Padre Mestre Belchior me mandou que, da minha vida, como de algumas coisas que eu tenha visto, lhe escrevesse mui largamente. E eu o fiz, não como ele queria, senão como entendi…

Só temo que o seu entendimento não seja bem entendido por aqueles que muito podem sobre os outros. Mas não lho digo, não gosto de pregar sustos.

Exit mobile version