Fevereiro de 1583. No terraço da casa, contemplando vinhas e arvoredos, meto conversa com o velho contador de histórias que já correu muito mundo:
– Fernão, mentes?
Encolhe os ombros, sorri:
– Queres que eu diga “minto!”, só para fazeres o trocadilho de Fernão Mendes Pinto com Fernão Mentes? Minto!
– E não mentes? É o que todos dizem, tão espantosas são as coisas que tu contas…
– Mais espantados ficariam se as tivessem visto como eu as vi: cortejos com milhares de figurantes, multidões em movimentos aguerridos, manadas de elefantes conduzidos por soldados (como se cavalos de batalha fossem aquelas alimárias), naufrágios em que se perderam tesouros e mais tesouros, travessias de pântanos e florestas com feras muitas, combates em alto mar em que todos (ou quase todos) pereceram, cidades cercadas e logo mais totalmente destruídas por incêndios, princesas formosas em seus palácios deslumbrantes e mendigos mutilados, paixões e desvarios…
– Queres então dizer que não mentes?
– E o que é mentir?
– É não faltar à verdade.
– E és tu a decidir o que é verdade, o que é mentira ? Nem sequer suspeitas que a mentira menor e aparente, pode ser um dos caminhos para a verdade maior e oculta? Repara que nem sempre a mentira é o oposto da verdade, pode ser até o seu mais precioso instrumento…
Com estas especulações não iremos longe. Mudo o rumo da conversa:
– Quando é que publicas esse livro imenso que andavas a escrever?
– Tens razão, é imensa a minha Peregrinação.
– Mas quando publicas?
– Logo se vê…
– Ó Fernão, a ver se acerto uma: estamos aqui, na tua quinta do Pragal, na margem esquerda do Tejo. Mas tu, ao que sei, nasceste na margem direita do Mondego.
– Sim, em Montemor-o-Velho.
– Portanto na mesma terra daquele Jorge de Montemor que foi para Castela e ali fez carreira de escritor. Apesar de cristão-novo, um bom escritor, tu não achas?
– Tu o dizes, que não eu.
– Também a tua família saiu, ou fugiu de Montemor para Lisboa, tinhas tu uns dez ou doze anos. Porquê?
– Não quero recordar a tristeza desses tempos.
– Mas lembras-te?
– Sim, lembro-me que, ao arribar a Lisboa, havia luto pela morte de D. Manuel I. Já te disse que foram tempos tristes.
– Mas uma coisa é a morte d’el-rei Venturoso, outra é a tua vida. O que é que aconteceu contigo e com a tua família? Haveis sofrido alguma perseguição em Montemor?
– Não quero falar disso.
– Seja! Mas ao menos, em Lisboa, viveste sossegado?
– Nem por isso… Menino e moço, com a morte diante dos olhos, tive outra vez que fugir. Em Alfama, no cais de pedra tomei uma caravela para Setúbal mas, ao largo de Sesimbra, fomos abordados por corsários franceses. Escapei da morte, até hoje não sei ao certo como. Em vez de me venderem como escravo no norte de África, acabaram por me largar na praia de Melides, desígnios de Deus…
– Fugiste de Lisboa, mas porquê?
– Não te interessa.
– Está bem, não me interessa. Mas ouve lá: partiste para o Oriente em 1537, justamente um ano depois da Inquisição se instalar aqui no Reino. Foi por acaso que partiste? Ou uma coisa está ligada à outra?
– E o que tens tu a ver com isso? Por acaso és do Santo Ofício?