
Como Saramago disse num Fórum Mundial Social em Porto Alegre, o mal das utopias é que desejamos um futuro que provavelmente não se adequa aos anseios de quem vive esse futuro. Se os revolucionários do último quartel do século XIX pudessem ver como vivem os trabalhadores século e meio depois das suas lutas, comparando os apartamentos em que agora se vive com os tugúrios infectos em que os proletários habitavam, não compreenderiam como «quem vive tão bem, ainda quer mais».
O Estado Social permitiu que os trabalhadores pudessem adquirir casa própria, que os filhos pudessem aceder ao ensino superior. Mas como a utopia anda sempre à frente da realidade, essas «vantagens», se assim se pode chamar às migalhas que os senhores do poder económico concediam a quem os servia, são apreciadas agora que as perdemos. E perdemo-las, não porque fossem exageradas, mas sim porque aquilo a que se chama o Estado Social, fazendo um negócio das migalhas atiradas aos trabalhadores, permitiu que obras públicas e créditos bancários, para referir dois exemplos, fossem alvo de especulações, de roubos, de corrupção. E agora, quem beneficiou de migalhas tem de pagar o rombo que a corrupção criou.
Na condenação da cidade, Guilherme de Azevedo e Cesário Verde não ocultavam uma certa admiração pelo chamado «progresso». Um dos sonetos de A Alma Nova, termina assim «E as grandes combustões que sempre vos consomem/Começam, num cadinho, a refundir o homem/Fazendo ressurgir mais larga a Humanidade!»
A “Humanidade”, que percorre os versos de Cesário Verde e de Guilherme de Azevedo e que inspirara as Odes Modernas de Antero de Quental, não está mais larga, não ressurgiu, refundida no cadinho do processo histórico, mais livre e justa – como há milhares de anos, está dividida, em senhores e em servos. A utopia da Fraternidade, da Igualdade, da Liberdade, continua a ser isso mesmo – uma utopia.

