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EDITORIAL – No aniversário de Cesário Verde

Imagem2Hoje, lembramos Cesário Verde que nasceu em Lisboa no dia 25 de Fevereiro de 1855.  Morreu 31 anos depois, em 19 de Julho de 1886, mas, apesar de ter vivido pouco tempo, marcou de forma indelével a poesia portuguesa. A compilação da sua poesia, reunida em O Livro de Cesário Verde, deve-se ao esforço de um amigo, Silva Pinto. Em 1901 o livro seria publicado. A dicotomia cidade/campo, aquela sufocando este, é a temática recorrente quer em Cesário em O Sentimento de um ocidental, quer , antes, em Guilherme de Azevedo em A Alma Nova, livro de que o nosso Manuel Simões se ocupou numa edição da Imprensa Nacional-Casa da Moeda, com uma excelente introdução e esclarecedoras notas: «Todo o livro é percorrido por sinais que antecipam a visão de Cesário acerca da antinomia cidade/campo. De um modo geral, é o campo que sai exaltado no processo discursivo que organiza o material do discurso.», diz Manuel Simões.

Como Saramago disse num Fórum Mundial Social em Porto Alegre, o mal das utopias é que desejamos um futuro que provavelmente não se adequa aos anseios de quem vive esse futuro. Se os revolucionários do último quartel do século XIX pudessem ver como vivem os trabalhadores século e meio depois das suas lutas, comparando os apartamentos em que agora se vive com os tugúrios infectos em que os proletários habitavam, não compreenderiam como «quem vive tão bem, ainda quer mais».

O Estado Social permitiu que os trabalhadores pudessem adquirir casa própria, que os filhos pudessem aceder ao ensino superior. Mas como a utopia anda sempre à frente da realidade, essas «vantagens», se assim se pode chamar às migalhas que os senhores do poder económico concediam a quem os servia, são apreciadas agora que as perdemos. E perdemo-las, não porque fossem exageradas, mas sim porque aquilo a que se chama o Estado Social, fazendo um negócio das migalhas atiradas aos trabalhadores, permitiu que obras públicas e créditos bancários, para referir dois exemplos, fossem alvo de especulações, de roubos, de corrupção. E agora, quem beneficiou de migalhas tem de pagar o rombo que a corrupção criou.

Na condenação da cidade, Guilherme de Azevedo e Cesário Verde não ocultavam uma certa admiração pelo chamado «progresso». Um dos sonetos de  A Alma Nova, termina assim «E as grandes combustões que sempre vos consomem/Começam, num cadinho, a refundir o homem/Fazendo ressurgir mais larga a Humanidade!»

A “Humanidade”, que percorre os versos de Cesário Verde e de Guilherme de Azevedo e que inspirara as Odes Modernas de Antero de Quental, não está mais larga, não ressurgiu, refundida no cadinho do processo histórico, mais livre e justa – como há milhares de anos, está dividida, em senhores e em servos. A utopia da Fraternidade, da Igualdade, da Liberdade, continua a ser isso mesmo – uma utopia.

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