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ANOS ATRÁS – Eleições da Associação Académica de Coimbra (1953) – 1 – por Carlos Leça da Veiga

Dia 27 de Fevereiro

Elemento agregador e dinamizador na vida académica, produto de anseios e esforços de sucessivas gerações de estudantes, sentindo e vivendo problemas e aspirações de todos e aí buscando orientação para a sua actividade e o próprio sentido da sua existência – a A.A. é hoje símbolo da unidade académica.

Há, inerentes à nossa própria condição de estudantes, interesses comuns a defender, aspirações a concretizar, problemas a resolver que só por uma congregação de esforços e de vontades poderão realmente achar solução satisfatória. E onde tal conjugação de esforços naturalmente se alcançará e todos, para além de quaisquer divergências particulares, nos congregaremos para a discussão e a resolução de problemas comuns, é sem dúvida na A.A. Só, porém, quando seja devidamente salvaguardada essa unidade, e auscultada a opinião de todos, e garantida a cada um a possibilidade de exprimir a sua opinião, poderá a A.A., de facto, realizar a missão que na vida universitária lhe está destinada. Querer excluir do trabalho dentro duma Associação, pertença de todos, estes ou aqueles estudantes, com esta ou aquela opinião, é, pois, atingir, mutilar, na sua própria essência o conceito que todos formamos de unidade académica. Não pode haver divergência honesta de princípios ou de processos que justifique qualquer diminuição, por mínima que seja, do princípio da universalidade que caracteriza a A.A. Como não se pode também admitir que só aos corpos directivos caiba o estudo e resolução das questões académicas, ou que seja no silêncio dos gabinetes que surjam para a luz soluções mais justas e ponderadas.

Problemas pertinentes a milhares de estudantes não são susceptíveis de soluções unilaterais concertadas em grupo. Só com o apoio, a colaboração constante, real e efectiva de todos poderá uma Direcção corresponder aos interesses gerais da Academia e desempenhar cabalmente a sua missão. E tal apoio não se mede apenas pelos resultados dum acto eleitoral realizado em Maio.

É de certo porque nestes últimos dois anos se têm seguido orientação totalmente diversa, que sucessivos fracassos, por vezes até de iniciativas úteis, se vêm acumulando: C. A. M. A., Posto Emissor, Pavilhão dos Desportos, etc. Em questões fundamentais como a assistência médica, o desporto universitário, as actividades culturais, a Via Latina – têm as últimas direcções preferido não consultar, não ouvir sequer a Academia, adoptando soluções arbitrariamente concertadas apenas pelos directores.

Ora urge que se comece a seguir orientação nova e a adoptar processos diferentes. Porque há problemas que de ano para ano se vêm agravando e que se não compadecem já com medidas transitórias ou de emergência. Problemas, na maior parte, para que nos recusamos a apresentar solução, preferindo que sejam antes ampla e exaustivamente discutidos e analisados no próximo ano, em Assembleias, debates ou conferências, por forma a que seja a própria Academia a decidir. Assim:

Problemas Sociais: Embora fundamentais na vida do universitário, são inúmeros os problemas – como o do desemprego dos recém-licenciados, o da habitação e alimentação, bolsas e isenções de propinas – a que se não prestou ainda a devida e necessária atenção e sobre que se não possuem sequer dados para estudo. Haverá, pois, para todos eles, e em particular para o do desemprego dos recém-licenciados, de tão agudo interesse e particular gravidade, que se proceder a eficiente inquérito e estudo, e a minuciosa análise em Assembleias ou debates, para subsequente representação ao Ministério da Educação.

Deverão mesmo constituir-se brigadas de estudantes de medicina para que procedam ao inquérito, in loco, das condições em que presentemente habita e se alimenta o estudante de Coimbra.

Ainda no campo dos problemas sociais, alguma coisa, porém, se poderá conseguir imediatamente: concessão de passes nos eléctricos, banhos gratuitos nos balneários do Hospital, abertura do Bar da Faculdade de Letras para serviço de pequenos-almoços, organização na A.A. duma Cooperativa para aquisição de géneros alimentícios para as diversas Repúblicas (coisa, aliás, já tentada há 3 anos).

Quanto à assistência médica, manutenção a titulo precário (até conveniente resolução do caso) da C.A.M.A., mas com extensão a todos os estudantes, gratuitamente, dos exames periódicos.

Problemas pedagógicos: Também os problemas pedagógicos, fundamentais na condição de estudante, não mereceram até agora a atenção dos diversos corpos directivos. Tem-se argumentado que constituem actividade especifica dos Conselhos de Faculdade, teimando-se em não querer ver, ou reconhecer, a manifesta incapacidade revelada por sucessivos e abúlicos Conselhos. E, entretanto, mau grado nosso, vêm os problemas pedagógicos agravando e avolumando de ano para ano. E as opiniões dividem-se, criticam-se uns aspectos para se aplaudirem outros, conseguindo-se apenas acordo unânime quanto ao facto indiscutível de que a orgânica universitária padece de mal crónico, mas grave.

(Continua)

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