
ANDRÉ FALCÃO DE RESENDE
( 1527 – 1599 )
“Ó FRÁGIL BEM, Ó BREVE GOSTO HUMANO”
Ó frágil bem, ó breve gosto humano,
ó débil formosura e transitória,
não posso eu já de vós deixar memória
sem que a deixe de minha culpa e dano.
Deixei ir a vontade d’ano em ano,
toda a vida traz vã e caduca glória,
e de meu mal compondo longa história,
vergonha publiquei e meu engano.
Mas quem com graves culpas me condena,
dir-lhe-ei muito não ser ter alguma culpa
quem teve toda a vida muita pena.
E se me não bastar esta desculpa,
dos olhos a água, e o escrever da pena,
que aliviar sói aos tristes, me desculpa.
Tema recorrente na poesia maneirista o da transitoriedade da existência, retomado, quase como estereótipo, da grande poesia de Quinhentos. Formalmente, o maneirismo cultiva o gosto pelo jogo de palavras e pela acumulação de conceitos.

