
ANTÓNIO SERRÃO DE CRASTO
( 1610 – 1685? )
SONETO
Onze vezes de folhas revestida,
onze vezes de flores adornada,
onze vezes de frutos carregada
te vi, ameixeira, aqui metida.
Outras tantas também de ti despida,
de folhas, flores, frutos despojada,
pelo rigor do Inverno saqueada
e a um seco tronco reduzida.
Também a mi me vi já revestido,
de folhas, flores, frutos adornado,
de amigos e parentes assistido.
De tudo estou já tão despojado…
Mas tu virás a ter o que hás perdido,
e eu não terei jamais o antigo estado.
(De “Fonte Jocosa”)
Deste poeta publicou Camilo Castelo Branco uma obra escrita nas masmorras inquisitoriais, “Os Ratos da Inquisição”. O soneto faz parte de um longo “romance”, cujo título (“A Francisco de Mezas em que lhe refere o tempo que o autor esteve preso na Inquisição”) é indicador explícito da exposição, ao seu protector, da miséria da sua situação.
