Sim, eu sou o Osvaldo Cruz. A minha família muda-se para o Rio de Janeiro em 1877. Ali Mamãe, em anos sucessivos, irá dar à luz mais três filhas: Alice, Hortênsia e Noemi. Mais três meninas que irão adorar-me… Papai é agora médico na fábrica Corcovado e na Junta Central de Higiene. E eu entro na Faculdade de Medicina em 1887, tenho apenas 15 anos.
No primeiro dia de aulas vejo que Mamãe sorri, tal pai tal filho, o saber contra a ignorância, a saúde contra a doença, a vida contra a morte.
Emília é filha do Comendador José Maria da Fonseca. Foi minha namoradinha de infância. Continua tendo uma queda por mim e eu por ela. Numa tarde de Dezembro de 1891, calor infernal, avista-me na praia do Flamengo, eu absorto, mirando o mar, mirando o longe. Pega no meu braço, sacode a minha cisma.
– Olá Emília, menina bonita, Você aí?
Vontade minha é abraçá-la e beijá-la, mas há que manter o decoro. Além do mais vem acompanhada pela mãe, não é de bom tom uma donzela andar sozinha pelas ruas do Rio. Respeitosamente cumprimento a senhora e começo a conversar com a filha. Puxo um assunto que me consome:
– Emília, Você não acha que em 1808, ao decretar a abertura dos nossos portos a toda a navegação, D. João VI estava promovendo o desenvolvimento do Brasil?
– Osvaldo, isso toda a gente sabe, aprendemos na Escola…
– Mas a febre amarela, vómito negro, está sabotando a intenção régia. Hoje, raros são os navios estrangeiros que demandam os portos brasileiros.
– É natural… Ninguém quer morrer de peste.
– É isso aí… O Brasil é um vasto hospital, é o que se diz em todo o mundo.
Mando parar uma caleche, convido e arrasto mãe e filha até minha casa. Mamãe e Sinhazinha recebem as duas com beijinhos e abraços. Antes da conversa descambar em frivolidades, puxo Emília para o meu laboratório. Ainda não acabei o curso de Medicina mas já publiquei dois livros. Trato de mostrá-los a Emília: Um caso de bócio exoftálmico em indivíduo do sexo masculino e Um micróbio das águas putrefactas encontrado nas águas do Rio de Janeiro. Também lhe mostro um microscópio, um instrumento para focar micróbios. Convido-a a espreitar e ela espreita. Vê umas coisinhas a mexer, assusta-se. São micróbios, porém inofensivos. Conto-lhe que os outros, os patogénicos, são aos milhões a cercar a Humanidade.
– Patogénicos? É assim que Você chama os micro-assassinos?
Diverte-me a terminologia inventada por Emília. Digo-lhe que a minha ambição, no Brasil, é combater e liquidar os micro-assassinos da varíola, tal como Pasteur, em França, liquidou os do carbúnculo e da raiva. Tento explicar-lhe o que é vacina. Não entende. Mas tem que entender, é só encontrar a imagem incisiva:
– Emília: um incêndio, numa floresta, pode ser combatido com o fogo. Você sabe disso, não sabe?
– Sim, sei, se o vento estiver de feição.
– Então saiba que uma doença pode ser combatida com produtos segregados pelas bactérias da própria doença. A isso é que se chama vacina e, com o nosso saber e o nossos querer, somos nós que sopramos o tal vento de feição. Depois é só vacinar todo o povo para erradicar a doença.
Vacinar todo o povo? Emília duvida, abana a cabeça, cepticismo: no Brasil o povo só acredita no que vê e os micro-assassinos não têm corpo visível…A intuição feminina acertando na mouche, reconhecerei mais tarde…