Há mais de vinte anos que eu já não via o Vasco, eu para um lado, ele para outro. Pergunta-me pela brasileirinha que eu andava a namorar. Conto-lhe que de Paris rumámos para Lisboa onde viemos a casar em Janeiro de 54.
– É hoje a mãe dos meus três filhos.
O Vasco espantado e eu não paro. Digo-lhe que ela descendia de judeus polacos emigrados para o Brasil e que o seu casamento com um não judeu causara traumas na família, apesar de progressistas serem eles. Acrescento que seguimos depois para o Brasil (eu a furar o cerco da PIDE…) Ao descermos no cais de Santos lá estava toda a sua família, umas vinte pessoas, pais, irmão, avó, tios e primos. A avó materna, que tinha mais de oitenta anos, dá-me um beijo e um abraço e, para a neta, diz qualquer coisa que ela traduz:
– Quando se cai de um cavalo, que seja de raça!
Aproximo-me da matriarca, dou-lhe mais um beijo e começo a relinchar.
O Vasco mata-se a rir com a história. O que, aliás, acontecera com toda a família da minha mulher, sinal que eu fora bem acolhido…