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SOBRE ÓSCAR LOPES – por Carlos Loures

Não vou fazer uma biografia de Óscar Lopes – há numerosos textos biográficos ao dispor de quem pretenda obter esse tipo de informação. Vou lembrar alguns contactos que tive com ele. Tínhamos sido apresentados em 1959, precisamente na Associação de Jornalistas e Homens de Letras do Porto, salvo erro pelo Egito Gonçalves. Fomo-nos encontrando casualmente em Lisboa e no Porto,. Quando colaborei no suplemento cultural do Jornal de Notícias, à época dirigido por Nuno Teixeira Neves, recebi mais do que uma carta de Óscar Lopes. Apoiando, aconselhando, discordando…

 Porém, foi só muitos anos depois, quando e editora em que trabalhava lançou uma grande História de Portugal (dirigida por José Hermano Saraiva), que com ele tive um relacionamento mais estreito, deslocando-me a sua casa, na Rua Belos Ares, ou combinando encontro na Baixa. Sempre que possível encontrávamo-nos, em Lisboa, na sede da Associação Portuguesa de Escritores de que Óscar Lopes foi fundador e presidente. Colaborou noutros projectos, mas recordo um extenso e magnífico capítulo que escreveu para o VI volume da História de Portugal – “Vectores culturais portugueses desde o liberalismo à actualidade”.

Um outro colaborador da editora, Germano Sacarrão, professor da Faculdade de Ciências,  a propósito da surdez de que padecia, contou-me  como uma manhã encontrou outros dois surdos  no café « A Tentadora», na Ferreira Borges, em Campo de Ourique, com a sua bela fachada Arte Nova: António José Saraiva, um morador do bairro, e Óscar Lopes que, na altura, era presidente da Associação Portuguesa de Escritores e vinha semanalmente, a Lisboa, ficando, ao que julgo saber, em casa do amigo. Saraiva que há muito abandonara o PCP (desde 1962), enquanto Óscar Lopes se manteve sempre como militante (tendo pertencido ao Comité Central). Convidaram-no para a mesa e Sacarrão escutou a discussão que ia a meio. Era uma  amistosa divergência de natureza ideológica, prolongada e rica em finos argumentos vindos de ambos os lados, mas nunca chegando a acordo – Sacarrão que os escutou deleitado e divertido com a elevação intelectual da divergência, comentou-me, usando, neste caso, a surdez no sentido metafórico. «- Um verdadeiro diálogo de surdos!».

Mas Óscar Lopes não era surdo ao apelo à solidariedade com o seu povo, nunca se refugiando na torre de marfim em que alguns intelectuais se abrigam. Na notícia necrológica do DN conta-se um episódio tocante . Quando, antes do 25 de Abril de 74, foi preso por motivo políticos e impedido de leccionar no ensino superior, sua avó chorou de desgosto quando soube que ele era comunista., “E eu chorei, porque ela chorou”. comentou Óscar Lopes.

Costuma dizer-se, quando morre alguém de valor, que ficamos mais pobres. Não vou repetir o lugar-comum, não por ser um lugar-comum, mas porque não é inteiramente verdade. Na notícia do DN, li que apesar de ser materialista, não pensava que a morte fosse o fim:  “Nós só conhecemos uma fracção mínima da realidade, estamos no início de uma grande aventura cósmica”, escreveu. Não sei o que se vai descobrir ao longo da ‘grande aventura cósmica’ – coisas inimagináveis, por certo.  Ao deixar-nos, lega-nos uma herança – o fruto de uma vida de trabalho. No estado actual dos conhecimentos, não vislumbro melhor maneira de estar vivo.

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