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CHIPRE: O QUE SE PODE ANTECIPAR DAS CONSEQUÊNCIAS – por Ventura Leite

Depois da decisão europeia e do FMI sobre as condições de assitência financeira a Chipre, não houve nehum impacto negativo relevante ao nivel dos mercados financeiros.

Contudo, uma declaração desta tarde do presidente do Eurogrupo de que o exemplo de Chipre  estabelecia uma base para futuras situações em que  outros bancos europeus entrassem numa situação de insolvência e em que os seus accionistas e principais credores privados manifestassem incapacidade de apoiar tais bancos, então os depositantes acima dos 100 000 € serão chamados a participar na ajuda aos bancos, o que  causou uma quebra imediata nas acções dos bancos.

Mas, para mim, estamos apenas a entrar gradualmente na realidade da crise.

Até agora as medidas de apoio europeias e do FMI para manter vivos os bancos  em maiores dificuldades, na Grécia, Irlanda, Portugal e Espanha, destinaram-se a  manter o sistema bancário nestes países com o pretexto de estarem em dificuldades por causa da sua exposição às dívidas soberanas. No caso da Irlanda e de Espanha, os apoios financeiros foram atribuídos aos governos, isto é, foram os governos que se responsabilizaram pela solvência dos bancos, mas  à custa de futuros encargos para os contribuintes.

Acontece que as maiores dificuldades do sistema bancário, por exemplo na Irlanda, ou em Espanha, nada tiverama ver com  dívida soberana em que tivessem tido prejuízos.

Só no caso da Grécia é que os credores foram pressionados a suportar um perdão significativo dos seus créditos de dívida soberana deste país. É por isso que alguns bancos portugueses registaram prejuízos de  centenas e centenas  de millões de euros.

Se olharmos para o caso português, como já o disse publicamente na SIC, há uma ameaça tremenda que paira sobre os bancos nacionais porque as famílias portuguesas deviam em Setembro de 2012 mais de 116 000 milhões de € por  crédito à habitação.

Ora se as famílias continuarem a ser espremidas pelas medidas de austeridade – desemprego, aumento de impostos, diminuição de salários e subsídiso, aumento de taxas variadas- muito brevememnte iremos assitir a um aumento insuportável de crédito mal parado pela banca nacional. Este é um assunto que a comunicação social não aborda, não sei se por falta de atenção, ou porque não convém.

Há quem tenha aldrabado os portugueses ao longo dos últimos anos dizendo que Portugal não tinha tido uma bolha imobiliária! Mas na verdade teve uma e gigantesca, que no entanto não explodiu de repente como a irlandesa, a espanhola, a islandesa ou  a norte-americana, mas que teve o seu efeito devastador no desemprego, na redução de impostos e outras receitas, e na qebra do PIB.

Para uma perspectiva deste ponto refiro apenas que a dívida das famílias portuguesas à banca é, em termos do PIB respectivo, cerca de 30% superior à mesma dívida nos EUA!!

Em conclusão deste post:

O anúncio de que esta solução do processo de colapso do sistema bancário cipriota  pode vir a ser utilizada para bancos europeus noutros países, embora surpeendente mostra que a crise está a evoluir para uma nova etapa, a do reconhecimento de que a enorme crise do sistema bancário vai ter que ter uma abordagem  mais terra a terra, isto é, a ideia de que os governos iriam aparar o jogo louco das últimas décadas em que gestores gananciosos, preocupados com os seus bónus alcançados com o que consideravam serem os ganhos dos accionistas dos bancos e outras instituições financeiras, pelo mero jogo da valorização accionista muitas vezes conseguida através de operações de marketing,  com a incúria ou mesmo cumplicidade das agências de rating, é um processo que vai entrar por um túnel apertado, que terá efeitos no financiamento da economia.

Logo, a nova economia, que vai resultar da actual crise, será muito mais parecida com a de um pós-guerra, do que a dum pós recessão. Vai ter um período mais ou menos demorado para arranque.

Quanto mais tempo os governos levarem a perceber ou a assumir isto perante os seus cidadãos, mais dramáticas serão as situações que forem surgindo, como se fossem surpresas, mas que na verdade estavam há muito pre-ordenadas.

No caso de Chipre, há vários anos que havia alertas para o funcionamento insustentável do seu sistema bancário, mas ninguém quis assumir as implicações designadamente ao nível do seu governo.

E quando as coisas rebentam, é para a Europa que se voltam as revoltas, e não para os político locais.

Como escrevi há dois dias, iremos ouvir histórias inacreditáveis sobre este desenvolvimento.

Os cipriotas, tal como os portugueses, é que serão os principais pagadores e sacrificados.

Mas este processo de ajustamento do sistema financeiro está apenas numa fase inicial. Não é possível antecipar o que vai acontecer e onde será com maior garvidade.

Para já, em Espanha e Portugal julgo que ainda não abrimos a caixa.

Em Espanha há mais de 2 milhões de habitações sem comprador: novas, usadas, em processo de construção e em processo de retoma pelos bancos.

Já imaginaram quem vai pagar isto? Como poderão os bancos, que financiaram esta loucura, sobreviver sem afectar ninguém?

Em Portugal fala-se em cerca de umas 400 000 casas novas ….. Portanto, a procissão ainda vai no adro!

Num livro que publiquei no ano passado defendi  várias teses, entre as quais as  de que a actual crise não pode ser ultrapassada no quadro actual do Euro, porque faltam Às economias mais fracas instrumentos para uma retoma da competitividade. Por isso propús uma solução inovadora : reintrodução do Escudo, mas sem sair do Euro, como forma de evitar a saída do euro, possibilitando que o País mantenha uma política de austeridade, de reforma do Estado, mas em simultâneo com uma estratégia de crescimento. Contudo não se trata de uma estratégia de crescimento para uma retoma ciclica da fase de recessão, mas uma recuperação estrutural, com a possibilidade de criação de centanea  de milhares de postos de trabalho nos próximos 8-10 anos.

Mas isso será para outros posts.

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