CHIPRE: O QUE PODE ACONTECER – 3 – por Ventura Leite

Parece que o governo de Chipre vai procurar evitar um corte nos depósitos até 100 000 € para limitar os custos do resgate europeu sobre os seus cidadãos, recorrendo a outras vias como privatizações, incluindo venda de activos da Igreja.

Mas o que mais me suscita este apontamento é uma certa onda de reacção crítica que me parece mais emocional do que racional à posição da UE.
Na minha opinião a cúpula da UE é uma componente da actual crise mais geral, e isso torna o futuro muito incerto, mas uma avaliação emotiva dos problemas ameaça fazer perder todo e qualquer sentido lógico, o que constitui um elemento que contribui para o agravamento de todo o processo.

Vem isto a propósito do facto de muitas pessoas em Portugal se esquecerem do que aconteceu aos portugueses por causa da criminosa gestão no BPN.

Vou defender este meu ponto de vista procurando colocar o problema em perspectiva.

Começo com uma rápida incursão pelo passado, concretamente, pela Islândia.
Ainda há dias referi o exemplo deste país para justificar a minha tese de que Maastrischt não pode justificar o descalabro económico e financeiro de um grande conjunto de países da União Europeia.
Num livro que publiquei ( passe a publicidade!) em Julho do ano passado ( SOLUÇÃO PARA A CRISE NACIONAL E EUROPEIA, pag. 24 ) eu referi o exemplo da Islândia para fundamentar a minha tese de que a crise financeira nos EUA não podia explicar toda a crise financeira mais global.
Regresso a alguns dos elementos referidos nessa ocasião:

Islândia.
Em Outubro de 2008 o seu sector bancário ( recordo que este País não está na União Europeia, logo nada tem que ver com o Euro), faliu e o país assumiu-se insolvente.O sistema financeiro tinha-se hipertrofiado ao ponto das dívidas dos seus três maiores bancos serem dez vezes o PIB do país ( de cerca de 12 000 milhões de dólares).

Um sistema bancário ganancioso, autoridades reguladora e política irresponsáveis, tinham conduzido o país para uma situação surrealista.
Como o governo garantia a situação dos depositantes, os responsáveis bancários foram contraindo crédito externo sem limites nem preocupações, para financiar actividades especulativas, que quando rebentaram, designadamente a imobiliária, os bancos deixaram de poder honrar os seus compromissos externos.
O governo foi em auxílio apenas dos seus depositantes nacionais, mas deixou os credores por sua conta e da sua irresponsabilidade na concessão de crédito.
Naturalmente que alguns não gostaram, como o governo inglês, que acabou por ter que intervir para acudir aos bancos que entraram em falência, agravada pelo colapso posterior do sistema bancário na Irlanda.

Chipre.
Segundo o FMI, três dos seus maiores bancos controlam 90 000 milhões de € do total dos activos bancários no país, representando quase oito vezes e meia o PIB do país( um pouco acima dos 18 000 milhões de €).
Com o dinheiro massivamente depositado neste bancos, atraídos por juros muito superiores aos oferecidos por outros bancos europeus ( tipo BPN), e por facilidades fiscais, os bancos cipriotas emprestaram abundantemente por vários países, designadamente a bancos gregos, e num volume 1,6 vezes o PIB cipriota.
O fim do filme torna-se, assim, compreensível e previsível. Quando a crise das dívidas soberanas estalou estes bancos registaram prejuizos sérios, e, tal como os bancos islandeses, agora não podem honrar os seus compromissos e estão falidos. Ponto final.

O resgate da UE é da ordem dos 10 000 milhões de €, tendo o governo cipriota que assegurar primeiro 5 800 milhões de €.

Já se sabe que na primeira hipótese o governo iria mobilizar esse montante confiscando 6,75% dos depósitos abaixo dos 100 000 €, e 9,9% nos depósitos acima daquel limite.

Houve uma reacção emocional e política de vários quadrantes a este procedimento. Uma reacção pelo facto de ser um expediente nunca utilizado em operações de resgate, e proque uma tal decisão colocava em causa um princípio de confiança em que assenta a actividade da banca. Relevava-se o facto de um procedimento deste tipo abalar os fundamantos da actividade bancária e poder desencadear um efeito dominó pela Europa.

A reacção inicial teve a ver também com a diminuta dimensão do resgate para números europeus. Os 10 000 milhões de € cedidos pelo Mecanismo Especial Europeu não constituiam à partida um montante relevante, pelo que a medida parecia uma decisão brutal para um problema mínimo!
Mas o problema não podia , nem pode, ser visto pela dimensão, mas pelo princípio.

Mas antes de irmos aos princípios, vejamos estes números em proporção.

Para um PIB que não chega aos 19 000 milhões de €, um resgate de 10 000 milhões de € ao sistema bancário representa o equivalente a 91 000 milhões ao sistema bancário português. Isto é quase oito vezes o que foi o apoio para a banca portuguesa. E nós sabemos como a banca portuguesa se comportou no mercado interno e no exterior, designadamente na Grécia onde teve prejuízos elevadíssimos!

Por outro lado a UE atribuíu um apoio financeiro de 100 000 milhões de € a Espanha para o seu sector bancário ( Julgo que no final não chegará perto sequer da realidade). Mas se compararmos o PIB de Chipre com o espanhol, o resgate previsto para Chipre é cinco vezes o atribuído a Espanha!

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