POESIA AO AMANHECER – 184 – por Manuel Simões
13 anos ago
CESÁRIO VERDE
(1855 – 1886)
O SENTIMENTO DUM OCIDENTAL
I – Ave Marias (excerto)
Nas nossas ruas, ao anoitecer,
há tal soturnidade, há tal melancolia,
que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia
despertam-me um desejo absurdo de sofrer.
O céu parece baixo e de neblina,
o gás extravasado enjoa-me, perturba,
e os edifícios, com as chaminés, e a turba
toldam-se duma cor monótona e londrina.
Batem os carros de aluguer, ao fundo,
levando à via férrea os que se vão. Felizes!
Ocorrem-me em revista exposições, países:
Madrid, Paris, Berlim, S. Petersburgo, o mundo.
(…)
Vazam-se os arsenais e as oficinas;
Reluz, viscoso, o rio, apressam-se as obreiras;
e num cardume negro, hercúleas, galhofeiras,
correndo com firmeza, assomam as varinas.
Vêm sacudindo as ancas opulentas!
Seus troncos varonis recordam-me pilastras;
e algumas, à cabeça, embalam nas canastras
os filhos que depois naufragam nas tormentas.
Descalças! Nas descargas de carvão,
Desde manhã à noite, a bordo das fragatas;
e apinham-se num bairro aonde miam gatas,
e o peixe podre gera os focos de infecção!
(De “O Livro de Cesário Verde”)
Tendo morrido muito jovem, foi o seu amigo Silva Pinto quem recolheu os poemas dispersos por jornais e revistas, organizando “O Livro de Cesário Verde” (1887). Poeta que “narra” o quotidiano de Lisboa, colhendo a melancolia e a dureza da vida urbana. De Cesário escreveu Alberto Caeiro/Pessoa: “Que pena tenho dele! Era um camponês/ que andava preso em liberdade pela cidade”.