A CANETA MÁGICA – O PENSAMENTO ÚNICO – por Carlos Loures
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O pensamento único, apresentado como pedra angular do sistema, impõe como verdade absoluta e indiscutível o primado do económico sobre o sociopolítico. Já vi jovens economistas rindo-se de argumentos de natureza moral e política. O politicamente correcto, que abriu caminho ao pensamento único, impõe uma total independência da economia. A economia tem de ser apolítica, dizem com o ar de quem diz o que é óbvio. Outros pilares do sistema – o realismo (as coisas são como são) e o pragmatismo (para se solucionar um problema de natureza económica, a ideologia política tem de ser erradicada). A nossa democracia obedece já não a princípios – obedece às leis e aos interesses do mercado. A verdade é que esta tese do carácter apolítico que as medidas económicas devem ter é aceite por muita gente que se considera de esquerda. «Porque» (já ouvi este argumento) «se a minha vida depende do êxito de uma cirurgia, interessa-me a perícia do cirurgião, não o seu credo político». Há uma afirmação recorrente, a cúpula dourada de toda esta arquitectura – a de que a divisão entre esquerda e direita deixou de fazer sentido. Naturalmente que esta apoliticidade das medidas económicas são expressão de um credo político – o neoliberalismo. De direita.
Da verdadeira extrema-direita.
As lutas políticas dos séculos XIX e XX, os quse cem anos que mediaram entre a Comuna e o Maio de 68, ensinaram algumas coisas às esquerdas, mas creio que as forças de direita aprenderam muito mais. Aprenderam que a ideologia é um apêndice dispensável. Adoptar a ideologia do inimigo e neutralizá-la é muito mais inteligente do que marchar em passo de ganso, com camisa negra, castanha, axul ou verde, de braço estendido… Ridículo, ostensivo e inútil. A democracia é um sistema lindo e tem a grande vantagem de se poder dizer tudo o que se queira.
Pode dizer-se tudo, fazer-se tudo. Um exemplo: pedófilos, em seguida ao julgamento em que foram considerados culpados e condenados, vieram às televisões dar uma conferência de imprensa. Dirão – é a Liberdade. Pois é – uma liberdade que põe em pé de igualdade criminosos e cidadãos eméritos. O sistema dá liberdade ao povo de escolher porque tem mecanismos que controlam o eleitorado, que induzem o voto. Como alguém que deixa à solta um cão potencialmente perigoso, mas amestrado e, portanto, inofensivo. Então a democracia foi aviltada, pervertida? Num certo aspecto, não. “Esta” democracia que temos foi, desde sempre, uma forma de os poderosos se imporem, dando-nos a possibilidade de escolher, mas só entre o leque de hipóteses que nos apresentam.
Voltemos à tal afirmação de Jean-Jacques Rousseau. «Se houvesse um povo de deuses, ele se governaria democraticamente. Um governo tão aperfeiçoado não convém aos humanos». Na realidade, a democracia directa, quando da sua primeira formulação e enquanto participação de todos os cidadãos nas tarefas do Governo, só era concebível dentro das exíguas dimensões geográficas das cidades gregas onde o estatuto de cidadão era atribuído com parcimónia. Ao querer transpor para espaços maiores e com uma abrangência conceptual mais ampla, os senados, os parlamentos, foram a maneira que se encontrou para ultrapassar a impossibilidade de «estar o povo a reunir-se constantemente para tratar da coisa pública». Simbolicamente, o povo reunia-se todo, delegando em representantes a defesa dos seus interesses e pontos de vista. Porém, também a respeito da solução do parlamentarismo (e referindo-se à experiência inglesa), Jean-Jacques Rousseau se pronunciou cepticamente: «O povo inglês, crê-se livre e bem se engana; só o é enquanto dura a eleição dos membros do Parlamento; assim que estes são eleitos, é um escravo, não é coisa alguma» (…) «A ideia dos representantes é moderna; vem-nos do governo feudal» (…) «Nas antigas repúblicas, nunca o povo teve representantes; era uma palavra desconhecida» (…)» Logo que um povo se atribui representantes, deixa de ser livre; mais, deixa de ser.» Estas considerações de Rousseau sobre o parlamentarismo permanecem completamente actuais.