“A LITERATURA DEVE DAR PRAZER MAS TAMBÉM SER UM ALERTA PARA QUALQUER COISA”- GONÇALO M. TAVARES, CCB, LISBOA por clara castilho
clara castilho
Clara Castilho continua a dar-nos conta da sua ida ao Centro Cultural de Belém na quinta-feira da semana passada.
Voltemos, de novo, ao Centro Cultural de Belém, dia 9 de Maio, conversa “Camões e a aventura”, inserida no ciclo “A cantar e a contar” e ao que Gonçalo M. Tavares esteve falando.
Considera que a literatura deve ser “pesada”, não deve ser qualquer coisa próxima de um passatempo. Deve dar prazer, mas também ser um alerta para qualquer coisa. E foi assim que nos leu dos excertos de uma obra sua – “O Senhor Brecht”.
“O cantor”
Um pássaro foi atingido com um tiro na asa direita e passou por isso a voar na diagonal.
Mais tarde foi atingido na asa esquerda e viu-se obrigado a deixar de voar, utilizando apenas as duas patas para andar no chão.
Mais tarde foi atingido por uma bala na pata esquerda e passou por isso a andar na diagonal.
Uma outra bala atingiu-o, semanas depois, na pata direita, e o pássaro deixou de poder andar. A partir desse momento dedicou-se às canções.”
Muitas pessoas estão a transformar-se em cantores — mas não por vontade própria. E isto é a primeira parte de uma tragédia.
“O desempregado com filhos”
“Disseram-lhe: só te oferecemos emprego se te cortarmos a mão.
Ele estava desempregado há muito tempo; tinha filhos, aceitou.
Mais tarde foi despedido e de novo procurou emprego.
Disseram-lhe: só te oferecemos emprego se te cortarmos a mão que te resta.
Ele estava desempregado há muito tempo; tinha filhos, aceitou.
Mais tarde foi despedido e de novo procurou emprego.
Disseram-lhe: só te oferecemos emprego se te cortarmos a cabeça.
Ele estava desempregado há muito tempo; tinha filhos, aceitou.”
A propósito do livro “A instalação do Medo” de Rui Zink, escrevi: “Cabe aos escritores e aos poetas transformarem em palavras nos nossos sentimentos”. Volto a dizê-lo, a propósito destas passagens que traduzem as inquietações que andam no ar.