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AMOR RAIANO – por Fernando Correia da Silva

Um Café na Internet

 

 

 

 

 

Em Julho de 1937, perto da fronteira com Espanha, de mão dadas, saltando de rocha em rocha, Paco (38 anos) e Isabel (28 anos) passeiam pela serra.

Isabel – Tu não tens Bilhete de Identidade, pois não?

Paco – Não, em Portugal sou apenas um espanhol clandestino.

Isabel – E se…

Engasga-se, não continua.

Paco – Diz lá.

Isabel – Não digo, tenho vergonha.

Paco – Ó menina, não sejas envergonhada, diz lá!

Isabel – Se quiseres casar, tu não podes, pois não?

Paco – É verdade, não posso, não tenho papeis. Mas nada me impede de fazer amor. É só encontrar a mulher certa…

Envergonhada, Isabel tapa o rosto com as mãos.

Paco – Não tenhas vergonha de uma coisa natural.

Isabel – Mas tenho, tenho, fui educada assim.

Paco – Isabel, ando perdido de amor por ti. Tenho até medo que me possas fugir e, só por isso, faço-te versos.

Isabel – Versos?

Paco – Sim, versos. Queres ouvir?

Isabel – Quero sim.

Paco – Ao longe, entre portas do desejo,
a aranha da saudade agora tece
a teia que te envolve e adormece.
Partiste. Repartido me revejo
ave noturna a debicar o nexo
cativo nessa concha do teu sexo.

Isabel – Ai que bonito, que bonito.

Paco – Ainda bem que tu gostaste.

Isabel – Como são os três últimos versos? Repete lá.

Paco – Partiste. Repartido me revejo
ave noturna a debicar o nexo
cativo nessa concha do teu sexo.

Isabel – Ai que lindo. E em português, em português…Não sei como hei-de agradecer-te.

Paco – Isto é o que sinto por ti. E o que se sente não é para agradecer.

Num repente, Isabel abraça-o e dá-lhe um beijo rápido no rosto. Depois foge, quase a correr.
 

in PENHASCO

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