CASAMENTO – por Fernando Correia da Silva

Um Café na Internet

                                                                              

Do seu quarto, Aurora (que aparenta 45 anos) chama:

– Isabel, Isabel, vem cá!

Isabel (que aparenta 23 anos) entra no quarto.

– Diga, mãe.

Diga, não! Não sejas malcriada. Faz favor de dizer, isso sim.

            – Mãe, faz favor de dizer.

– Já decidiste o caso com o David?

– Sim, já decidi.

– E quando é o casamento?

– Não há casamento.

Frustrada, Aurora leva a mão ao peito. Estará prestes a ter um desmaio

– Mas porquê, meu Deus, porquê?

 – Porque ele não me apetece para marido.

– E quem é que te apetece?

– Ninguém.

– Mas tu já reparaste na fortuna do David? Já viste as terras que tem e o palacete que herdou lá em Castelo Branco? E o seu automóvel? E o dinheiro que dizem que ele tem no banco?

– Eu não me caso nem com terras, nem com palacetes, nem com  automóveis, nem com dinheiros. Se eu um dia me casar há-de ser com um homem, não com isso tudo que a mãe aponta…

– Já vi o teu destino, vais pecar aqui, vais pecar ali…

– Pelo amor de Deus…

– Filha, eu bem sei o que são as tentações. A não ser que prefiras viver só do ar, na miséria.

– Talvez, pesa menos…

– Ai rapariga, rapariga, toma tento. Um dia destes ainda te vejo a professar para freira.

– Não é má ideia, não senhora. E carmelita, carmelita, monja descalça. É isso que me apetece.

– É isso que te apetece? Não posso acreditar… – É isso, sim senhora. Assim eu passava a ser esposa de Jesus Cristo. Era uma outra forma de casamento e a mãe ficava toda contente, não é?

Aurora. benzendo-se:

– Ai rapariga, não blasfemes que Deus Nosso Senhor ainda te castiga.

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