
Do seu quarto, Aurora (que aparenta 45 anos) chama:
– Isabel, Isabel, vem cá!
Isabel (que aparenta 23 anos) entra no quarto.
– Diga, mãe.
– Diga, não! Não sejas malcriada. Faz favor de dizer, isso sim.
– Mãe, faz favor de dizer.
– Já decidiste o caso com o David?
– Sim, já decidi.
– E quando é o casamento?
– Não há casamento.
Frustrada, Aurora leva a mão ao peito. Estará prestes a ter um desmaio
– Mas porquê, meu Deus, porquê?
– Porque ele não me apetece para marido.
– E quem é que te apetece?
– Ninguém.
– Mas tu já reparaste na fortuna do David? Já viste as terras que tem e o palacete que herdou lá em Castelo Branco? E o seu automóvel? E o dinheiro que dizem que ele tem no banco?
– Eu não me caso nem com terras, nem com palacetes, nem com automóveis, nem com dinheiros. Se eu um dia me casar há-de ser com um homem, não com isso tudo que a mãe aponta…
– Já vi o teu destino, vais pecar aqui, vais pecar ali…
– Pelo amor de Deus…
– Filha, eu bem sei o que são as tentações. A não ser que prefiras viver só do ar, na miséria.
– Talvez, pesa menos…
– Ai rapariga, rapariga, toma tento. Um dia destes ainda te vejo a professar para freira.
– Não é má ideia, não senhora. E carmelita, carmelita, monja descalça. É isso que me apetece.
– É isso que te apetece? Não posso acreditar… – É isso, sim senhora. Assim eu passava a ser esposa de Jesus Cristo. Era uma outra forma de casamento e a mãe ficava toda contente, não é?
Aurora. benzendo-se:
– Ai rapariga, não blasfemes que Deus Nosso Senhor ainda te castiga.

*Duas geraes …duas mentalidades …..[image: Imagem intercalada 1]*Maria