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DE LAMPEDUSA, DE VISCONTI, DO LEOPARDO À CRISE DO PENSAMENTO ECONÓMICO DE HOJE, À CRISE ACTUAL NA EUROPA – UM TEXTO DE THOMAS PALLEY.

Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

A teoria e o modelo de política económica do Leopardo de Lampedusa e de Visconti: A crise e a resposta dada pelo pensamento económico dominante para a mudança de modo a que tudo se mantenha na mesma.

Thomas I. Palley

 PARTE II
(continuação)

Antes de 1980, os salários foram o motor do crescimento da procura. Depois de 1980, a dívida e a inflação nos preços dos activos tornou-se o motor do crescimento da procura. O novo modelo pode ser descrito como a “caixa de ferramentas da política neoliberal”, que é ilustrada na Figura 2. As pressões sobre esta caixa vêm de todos os lados. A globalização coloca os trabalhadores em competição internacional, uns contra os outros, através das redes de produção global e do comércio livre. A pequena agenda governamental ataca a legitimidade dos governos e empurra implacavelmente para a desregulamentação, independentemente dos perigos que daí possam advir. A agenda da flexibilidade do mercado de trabalho ataca as confederações sindicais e as bases de funcionamento dos mercados de trabalho como, por exemplo, o montante do salário mínimo, os subsídios de desemprego, as protecções dos trabalhadores quanto aos seus postos de trabalho e quanto aos seus direitos no trabalho. O abandono do pleno emprego coloca os trabalhadores sob coacção, enquanto a política monetária é conduzida com os olhos numa baixa inflação e para apoio dos interesses dos mercados financeiros. A finança, portanto, conduz à redução dos salários através das políticas públicas e do controlo sobre as empresas que é exercido através da desregulamentação pelos mercados financeiros.

A caixa de ferramentas da política neoliberal foi desenvolvida e aplicada à escala global, no Norte e no Sul, o que multiplicou o seu impacto. Este é o significado do chamado “Consenso de Washington” que foi imposto pelo FMI e pelo Banco Mundial. Nas décadas de 1980 e 1990 muitos países de economia de mercado ditos países emergentes precisavam de ajuda financeira para escapar à crise da dívida do início de 1980. O FMI e o Banco Mundial adoptaram a sua caixa de ferramentas ou de medidas da política neoliberal como a condição prévia para esses países poderem obter assistência financeira e económica. Isto era o significado do debate sobre a “condicionalidade” e sobre o “ajustamento estrutural”. De uma forma ou de outra, a caixa das ferramentas, foi posta em acção globalmente – na Europa, nos Estados Unidos, no Canada, México, Argentina, Brasil, Chile, Austrália e África do Sul.

A análise estruturalista de matriz keynesiana também torna claro o papel da finança na crise. Através de se fomentar a estagnação dos salários e uma maior desigualdade na repartição do rendimento, o modelo neoliberal inevitavelmente prejudicou o processo de desenvolvimento da procura e da criação de rendimentos. Assim se criou um crescente e estrutural défice na procura agregada, “o gap da procura”, e o papel da finança foi o de preencher essa lacuna, esse défice. A desregulamentação financeira, a inovação financeira, a especulação e a já velha e antiquada fraude via os empréstimos fraudulentos permitiu à finança resolver, ou seja, eliminar o “gap da procura” através de empréstimos aos consumidores e inflacionando os preços dos activos. No entanto, ao criar durante trinta anos uma bolha de crédito, estas práticas obscureceram os efeitos negativos de estagnação dos salários sobre a procura assim como obscureceram os efeitos resultantes de uma crescente desigualdade de rendimentos.

O défice na balança comercial dos Estados Unidos e os desequilíbrios financeiros globais associados também desempenham um papel importante na análise estruturalista de matriz keynesiana sobre a crise. Como se observou anteriormente, a globalização é um elemento central da caixa de ferramentas da política neoliberal e a globalização é a porta através da qual os desequilíbrios financeiros globais entram. De uma perspectiva estruturalista de matriz keynesiana, os desequilíbrios globais não eram um problema que tenha surgido repentinamente na década de 2000. Em vez disso, eles eram um inevitável resultado a longo prazo da globalização[1]. Isto é claramente ilustrado na tabela 1, que mostra o défice da balança comercial dos Estados Unidos em percentagem do PIB pelo pico do ciclo de actividade económica para o período 1960-2007. Até 1980 a balança comercial dos Estados Unidos estava mais ou menos equilibrada. Depois disso começou a aumentar de forma sustentada, contínua e persistente, alcançando 5,7% do PIB em 2007. O abrupto agravamento do défice após 1980 corresponde ao ponto de viragem para o neoliberalismo.

Pré-1980 a política económica era dominada pela lógica keynesiana e os défices comerciais eram vistos com preocupação tanto quanto representavam uma fuga na procura agregada para a procura de bens no exterior. Depois de 1980, os políticos neoliberais viam os défices comerciais como semi-virtuosos porque o comércio externo ajudava a limitar a inflação. Para as grandes empresas, a abertura comercial na década de 1980 foi vista com muito bons olhos, como uma forma de disciplinar e fazer vergar as centrais sindicais e fazer inverter o processo de redução dos lucros que tinha sido desencadeado desde os anos de 1960 e de 1970. Na década de 1990, a abertura ao comércio tornou-se parte da lógica da criação de uma “área de produção global” em que as grandes empresas norte-americanas poderiam produzir no exterior e depois exportar para os EUA, ou abastecerem-se em todas as fontes que permitissem produtos intermediários a custos mais baixos.

Consequentemente, na era neoliberal os políticos e os empresários, ambos, têm visto o comércio internacional através da lente da redução de custos e de contenção de salários. Para os decisores políticos, a abertura ao comércio tornou-se um meio de restringir a taxa de inflação. Para as grandes empresas, a abertura ao comércio foi inicialmente um meio de travar as revindicações dos trabalhadores e das centrais sindicais e, posteriormente, tornou-se o centro de uma estratégia que visa criar uma zona de produção global em que os empresários têm acesso ao menor custo do trabalho. Esta configuração na formulação do decisor das políticas económicas e dos interesses das grandes empresas explica porque é que a era neoliberal gerou um comércio sistematicamente não equilibrado que culminou no problema do desequilíbrio financeiro à escala global.

Os efeitos da globalização ao nível das grandes empresas têm sido múltiplos, nomeadamente contribuindo para a estagnação salarial e para a ampliação da desigualdade de rendimentos e de riqueza; gerando a crise derivada da bolha dos preços no imobiliário; espalhando a Grande Recessão a partir de os EUA para o resto do mundo e contribuindo para a estagnação económica que agora ameaça a economia dos EUA.

No que diz respeito à estagnação dos salários e à desigualdade na repartição do rendimento, a globalização realizada a partir das grandes empresas coloca os trabalhadores norte-americanos, particularmente aqueles que estão no sector da indústria transformadora, em concorrência no mercado mundial. A concorrência daí resultante é utilizada como ameaça para intimidar os trabalhadores a aceitarem a supressão de postos de trabalho enquanto a produção offshore contribuiu para a desindustrialização e para a perda de empregos com salários mais elevados na indústria transformadora[2].

No que diz respeito ao desencadear da crise financeira, os efeitos da globalização levada a cabo pelas grandes empresas (e particularmente os efeitos das relações económicas EUA – China) desempenharam um papel crítico em contribuir para uma retoma na economia extremamente fraca e para uma fraca expansão após a recessão de 2001. O défice comercial drenava a despesa para bens produzidos fora da economia nacional, enquanto a deslocalização para o estrangeiro e o abastecimento no exterior resultaram na perda de empregos e no desvio do investimento. Estes efeitos geraram um profundo alargamento e sem precedentes da massa de desempregados à escala nacional que continuamente ameaçavam transformar a situação em recessão. Isto levou o Federal Reserve a reduzir as taxas de juros para mínimos históricos o que, por sua vez, desencadeou a bolha de preços no sector do imobiliário. A criação da bolha impediu uma recaída na recessão, mas a expansão registada foi ainda mais fraca, apesar do enorme estímulo da bolha dos preços no imobiliário (Bivens e Irons, 2008). Assim, através da aceleração da degradação da repartição do rendimento e da procura na economia americana, a globalização levada a cabo pelas grandes empresas aumentava a área e a profundidade das contradições no modelo neoliberal. Foi isto que empurrou os responsáveis políticos para fomentar uma bolha, bolha esta que implodiu e que desencadeou a crise.

Uma vez que a crise rebentou, então o défice comercial desempenhou um papel importante na propagação da crise global. Em primeiro lugar, a economia global foi rapidamente atingida pela queda na procura agregada dos Estados Unidos devido aos enormes volumes das importações norte-americanas. Em segundo lugar, muitos países tinham reciclado os seus excedentes comerciais em investimentos imobiliários e títulos subprime nos Estados Unidos e eles foram, portanto, negativamente impactados pelo colapso dos preços dos activos americanos.

Por último, o défice comercial também tem desempenhado um papel importante em impedir a retoma económica dos EUA. Isso é assim porque o seu défice comercial constitui uma grande fuga da procura agregada num momento em que esta procura é escassa. Em suma, a globalização feita pelas grandes empresas desempenhou um papel fundamental na dinamização e difusão da crise económica assim como na consequente estagnação através do seu impacto sobre os salários, sobre as desigualdades no rendimento que se alargam, sobre o volume de emprego na indústria transformadora e sobre os níveis de investimento.

Finalmente, a narrativa estruturalista de matriz keynesiana também deixa claro o papel da distribuição do rendimento e porque é que agora nos confrontamos com uma situação de estagnação. De acordo com esta narrativa, o modelo neoliberal gerou a estagnação dos salários assim como gerou profundas desigualdades na repartição do rendimento. No entanto, não foi a desigualdade na distribuição do rendimento que fez disparar a crise. Isso é assim porque a falta de procura efectiva por aí provocada, provocada portanto pela distribuição do rendimento foi coberta pela bolha de crédito que se tem verificado desde há trinta anos, onde se inclui o financiamento da bolha dos preços no imobiliário. Contudo, com o rebentar da bolha de crédito, os efeitos da distribuição do rendimento, os efeitos da degradação na repartição do rendimento vêm à tona porque os empréstimo concedidos que preenchiam a lacuna da procura agregada deixam agora de ser possíveis. A distribuição do rendimento é, portanto, o cão que ladra depois do desastre que é o rebentamento da crise e é esta repartição degradada que se torna agora a causa da estagnação. Embora as medidas de emergência da política keynesiana tenham estabilizado a economia após a crise financeira de 2009, a economia enfrenta um futuro de estagnação porque distribuição do rendimento permanece não alterada, criando um défice estrutural da procura.

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[1] Para uma análise detalhada das explicações alternativas sobre os desequilíbrios globais, veja-se Palley (2012, chapter 7).

[2] A redução salarial e a perda de empregos articulados com os efeitos derivados da aplicação do acordo NAFTA foi bem documentada por Bronfenbrenner (2000) e Bronfenbrenner e Luce (2004). Scott (2001) também documenta os custos do emprego de NAFTA, enquanto Scott (2012) documenta os custos em trabalho que resultam do comércio com a China.

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