Selecção e tradução por Júlio Marques Mota
A teoria e o modelo de política económica do Leopardo de Lampedusa e de Visconti: A crise e a resposta dada pelo pensamento económico dominante para a mudança de modo a que tudo se mantenha na mesma.
Thomas I. Palley
PARTE VI
(CONTINUAÇÃO)
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4. A teoria económica à Leopardo e a sociologia da citação
A característica final da teoria económica à Leopardo diz respeito à sua sociologia da citação. Os efeitos macroeconómicos da distribuição de rendimento, (Kalecki, 1942; Pasinetti, 1962; Harris, 1974), o endividamento das famílias como suporte da procura agregada (Barba e Pivetti, 2009; Cynamon e Fazzari, 2008; Palley, 1997, 2002 e 2009, 2012a), mantendo-se em linha com o comportamento de consumo à Jones e as implicações da riqueza sobre o consumo na função de utilidade (Duesenberry, 1949; Palley, 1992, 2010); e o caso para uma meta de inflação mais elevada (Palley, 1998, 2006) todos estes temas são temas sobre os quais extensivamente escreveram os keynesianos assim como os pós keynesianos. Ainda se deve sublinhar que nenhuma desta literatura é citada no novo trabalho do pensamento económico hoje dominante sobre estas questões. Há boas razões para isso. A citação autoriza e garante o trabalho dos outros. Consequentemente, não os citar é uma forma de negar a legitimidade intelectual dos economistas de pensamento diferente ou mesmo em clara oposição.
Uma segunda citação na linha da estratégia à Leopardo, evidente no trabalho sobre a teoria do crescimento endógeno e as crises financeiras, é citar uma contribuição fecunda e de referência de dado autor mas ignorar todos os seus trabalhos posteriores nesse sentido. Por exemplo, no crescimento endógeno que significa citar Kaldor (1957); na teoria de crise financeira que significa citar Minsky (1982); e na teoria de consumo que significa citar Duesenberry (1949)? Uma tal estratégia de citação sublinha quem é a figura fundadora e estabelece a pretensão de uma linhagem intelectual, enquanto mantém suprimida a obra rival que obrigaria a uma verdadeira mudança de posição[1].
5 Conclusão: porque é que a exposição e a explicação crítica da teoria económica à Leopardo devem ser importantes
A análise estrutural de matriz keynesiana sobre a crise económica deixa claro qual tem sido o papel dos economistas do pensamento económico dominante e o papel do paradigma neoliberal na criação da crise. Retire-se o verniz a qualquer lado da caixa de ferramentas da política neoliberal e encontrar-se-á rapidamente as ideias dos economistas neoliberais. A globalização justificava-se pelo recurso dos economistas defensores do livre comércio à teoria das vantagens comparadas de Ricardo. A agenda sobre a flexibilidade do mercado de trabalho, era justificada pela ideia dos economistas neoliberais de que os sindicatos e o salário mínimo provocam desemprego. A saída da situação de pleno emprego justificava-se pela teoria da taxa natural de desemprego de Friedman, que implicava que os bancos centrais devem incidir a sua política sobre uma baixa taxa de inflação uma vez que eles não podem afectar permanentemente o desemprego.
O ataque sobre o governo e a regulação que foi apoiado pela escola de Chicago é feito na base de que custos das falhas de mercado são pequenos relativos aos custos de falha de governo e da sua política que levam a induzir-se fortes distorções de mercado. O governo também foi acusado de diminuir a liberdade e de estar assim a criar o “caminho da servidão”, pelo que a liberdade seria sempre melhor servida por um governo minimalista ou por um Estado a ter o mesmo papel que o polícia nocturno. A desregulamentação financeira justificava-se assim pela ideia do pensamento neoliberal de que produziria almoço grátis pelo aumento da eficiência na afectação dos recursos.
Depois da crise financeira de 2008 muitos economistas keynesianos esperavam que se verificasse uma mudança profunda da teoria nos economistas de profissão. A profissão ficou desacreditada devido à sua incapacidade completa de se antecipar a crise, enquanto que os economistas keynesianos tinham previsto a crise e também mostraram como a economia neoliberal contribuiu para o desenvolvimento da mesma. No entanto, a mudança, se a houve, foi mínima.
Mas isto não deve surpreender ninguém. A economia neoliberal apoia os interesses económicos e políticos das elites poderosas, e as elites têm razão para defendê-la e bloquear as mudanças. Mesmo se apenas subconscientemente, os profissionais em economia também têm um interesse privado (a maximização de utilidade) em manter as ideias neoliberais, na medida em que eles estão intelectualmente a investir nessas mesmas ideias e as suas próprias carreiras foram construídas sobre elas.
A sociedade está agora empenhada numa guerra de ideias, cujo resultado muito influenciará o futuro. E é exactamente por isso que explicar a crise irá influenciar a direcção da futura política económica. A teoria económica à Leopardo é um dos mecanismos de bloqueio para a mudança intelectual. E este bloqueio funciona por turvar as águas e aparecer a seguir a oferecer a mudança, quando na verdade o que pretende é que se mantenha tudo na mesma. Eis pois a razão pela qual é tão importante expor a teoria económica à Leopardo.
Thomas I. Palley, Gattopardo economics: The crisis and the mainstream response of change that keeps things the same, Working Paper, Institut für Makroökonomie und Konjunkturforschung, Macroeconomic Policy Institute, Alemanha, Abril de 2013.
(continua)
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[1] Van Treeck (2012) fornece um detalhado estudo de um caso exemplar, mostrando como a teoria do rendimento relativo do consumo foi incorporada no pensamento económico dominante sem nenhuma referência para o trabalho feito pelos economistas keynesianos a sublinhar este tema nestes últimos trinta anos.
