Um Café na Internet
– Quando hoje eu vejo a Amazónia a arder, incendiada pela ganância de madeireiros e seringueiros e criadores de gado; quando vejo doidos apostados em chacinar até ao último índio, ou à bala, ou com veneno como a estriquinina, ou com doenças contagiosas como a varíola, disseminadas de maloca em maloca, pergunto-me onde estaríamos hoje nós, povos indígenas, se não tivesse existido um Rondon. Embora muitos de nós tenham sido e continuem a ser chacinados, dezenas de milhares foram salvos por ele.
– Um grande missionário! Leigo, mas um grande missionário…
Irrita-se, parece furioso com a minha observação. Não me espantará se arrancar camisa e calças para, desnudo, iniciar uma dança guerreira. Já me atira um dardo com ponta de sílex:
– Não diga bobagem! Apesar desse “leigo” metido a adversativo, esqueça a palavra… Pelos sacrifícios que sofrem servindo a Deus, os missionários pensam ganhar o Céu. É recompensa metafísica, mas recompensa. Já Rondon e os seus homens são movidos apenas por uma ideia civil, laica, viver para outrem. Para eles não está prometida qualquer recompensa; nem nesta, nem na outra Vida. Ora diga lá: quais são os mais abnegados?
