Como oportunamente anunciámos, antes de uma nova série de mini-peças, apresentaremos trabalhos dos nossos colaboradores sobre teatro. Depois de um texto de Manuel Simões, publicamos este artigo de António Gomes Marques sobre Teatro de Amadores. Lembramos que este argonauta foi presidente da Associação Portuguesa de Teatro de Amadores (APTA).
Falar de Teatro de Amadores (e não Teatro Amador), ou seja, dos que por amor fazem teatro, pode remeter-nos para a área da animação sociocultural e/ou para a da divulgação cultural descentralizada.
Tempos houve em que o Teatro de Amadores tinha o respeito do País, dos meios intelectuais, do público em geral e dos meios de comunicação social. Depois do 25 de Abril conquistou mesmo o respeito do poder político, com ajudas financeiras e alguns meios técnicos, com excepção do período em que foi Secretário de Estado da Cultura essa figura única que dá pelo nome de Vasco Pulido Valente.
Também os partidos políticos, sabedores de que as actividades desenvolvidas pelos Grupos dão o seu contributo nas transformações qualitativas ao nível do consciente, tentaram dominar a sua organização, APTA-Associação Portuguesa do Teatro de Amadores, sem qualquer êxito. O movimento tornou-se forte. Fizeram-se Festivais de Teatro de Amadores que sempre tiveram o apoio dos vários públicos, das Câmaras Municipais, dos Governos Civis, da Fundação Calouste Gulbenkian e também da Secretaria de Estado da Cultura embora não tanto como o movimento então merecia; fizeram-se cursos dirigidos por grandes encenadores europeus, participou-se em Festivais Internacionais e em vários cursos fora do País.
Na era cavaquista os apoios governamentais já não foram os mesmos, mas a culpa não foi apenas do poder político. A estrutura montada, com as Associações Regionais, poderia resistir. No entanto, alguns dos grupos mais fortes e mais implantados tiveram a ilusão da profissionalização, a comunicação social ajudou e os grupos foram ficando cada vez mais isolados. Hoje continuam a existir muitos grupos de teatro de amadores, mas não existe o movimento do teatro de amadores. As Câmaras Municipais, nos concelhos onde os grupos existem, vão apoiando e a imaginação dos seus elementos faz o resto.
Agora, há que colher as lições com a história recente do teatro de amadores e torná-lo de novo num movimento forte. O INATEL parece ser, no momento, a organização que poderá dar um dos maiores impulsos para que as potencialidades que existem se transformem e o desejado movimento surja. O «Forum do Teatro de Amadores», que decorrerá em Aveiro de 28 de Novembro a 1 de Dezembro, organizado por aquele Instituto, poderá ser um passo importante nesse sentido.
Para além dos próprios grupos, as Escolas e os seus Professores, as Associações de Pais e as Autarquias, as Associações Ecologistas e as Associações Recreativas/Desportivas deverão também ser chamadas a dar o seu contributo. Quantos dramas se vivem no seio das famílias e das comunidades que se poderiam evitar se aos jovens fossem dadas condições para desenvolverem uma actividade tão enriquecedora como é a do teatro de amadores? Deixemos esta questão por agora; hoje, o que nos move é a relação entre os profissionais e os amadores de teatro.
E o teatro profissional, se ambiciona implantar-se em todo o País, não pode continuar a ignorar os grupos de teatro de amadores.
É verdade que as dificuldades de relacionamento entre os amadores de teatro e os profissionais são hoje um facto e a responsabilidade não pode ser atribuída apenas a uma das partes. Os amadores de teatro necessitam de espaços para apresentarem os seus espectáculos e, neste campo, os profissionais de teatro, gerindo bem os espaços de que dispõem, poderão conseguir uma aproximação que a todos será proveitosa, não só por manter tais espaços abertos às populações, mas também porque o teatro de amadores pode desempenhar com mais facilidade um dos seus papéis que é o de atrair públicos para a frequência do teatro, para a criação do hábito de ir ao teatro e, ainda e muito importante, pode também proporcionar o contacto entre todos os intervenientes: entidades referidas, populações que vivem nas áreas abrangidas, tornando possível a discussão e solução de problemas que a todos interessam. Se os profissionais de teatro disponibilizarem os seus espaços e se, com a humildade dos inteligentes, derem também um contributo para a solução de alguns problemas técnicos que os amadores de teatro vivem, estará dado um passo importante para a confiança se implantar. Outra das razões, que os amadores de teatro dificilmente confessam, tem a ver com as concepções estéticas de alguns espectáculos profissionais que os confundem e, consequentemente, os intimidam (claro que não estamos a falar de todos os amadores de teatro, mas de uma percentagem bem superior aos 50% que vive espalhada pelo País). É de lembrar também que, muitas vezes, os amadores de teatro se sentem lesados por verificarem que também os profissionais, instalados ou não na sua região, se dirigem às mesmas entidades públicas na solicitação de apoios, sobretudo financeiros. Se o que atrás se diz se verificar, esta questão perderá grande parte da sua importância.
Completando algo que atrás já se aflorou, os amadores de teatro são fundamentais na conquista de públicos, dado que cada vez mais as portas das escolas se lhes abrem e também porque uma enorme percentagem de portugueses viu teatro graças à actividade desenvolvida pelos amadores. Os profissionais devem meditar neste aspecto e não podem esquecer que os amadores se vêm tornando cada vez mais exigentes, mesmo no campo estético, por cada vez mais os grupos de teatro de amadores serem constituídos por pessoas com um grau cultural bem mais elevado do que há alguns anos, graças ao seu esforço pessoal mas também devido aos cursos de formação virados para o teatro, em Portugal e no estrangeiro.
A arrogância de muitos amadores de teatro no contacto com os profissionais tem mais a ver com a intimidação que acima se refere e também por sentirem que, de um modo geral e no que ao teatro diz respeito, sabem muito pouco em comparação com os profissionais; a arrogância dos profissionais no contacto com os amadores é, geralmente e culturalmente falando, fruto de uma grande ignorância.
Quer os profissionais quer os amadores de teatro têm que assumir as suas diferenças. Se é verdade que os amadores têm que ter consciência que não podem competir tecnicamente com os profissionais, é bom que os profissionais não esqueçam que, como nos ensina Manfred Wekwerth, muitas vezes os amadores «representam frequentemente o que observam com mais frescura». Os amadores de teatro devem procurar dar largas à sua espontaneidade e não procurar imitar os profissionais. Os profissionais, como lembra o autor citado, representam muitas vezes com os gestos de sempre: «há gestos para o amor, para a alegria, a indignação dos gestos a toda a prova transmitidos por uma longa tradição, …».
Outra das questões fundamentais tem a ver com o prazer de representar. É verdade que muitos dos amadores de teatro encontram nesta actividade a sua forma de intervir na comunidade a que pertencem, mas não é menos verdade que o prazer de fazer teatro está sempre presente. Passar-se-á sempre o mesmo com os profissionais?
Portela (Sacavém), 22 de Novembro de 1998
