(Conclusão)
Como observa Olson, o universo da escuridão com seus horrores, com os fantasmas saídos de quadros de Jeronimus Bosch, desaparecem no final. Não que ele estivesse saindo do Inferno para o Céu, mas como se tentasse recuperar, no encanto natural de Gales, seu paraíso perdido.
Já em “Nutre a luz”, de Twenty Five Poems, seu segundo livro, Dylan, que se dizia “o poeta das trevas”, expressa o desejo de fundir-se com o universo, buscando a luz onde quer que se encontrasse, para conhecer e dominar a escuridão. Em sua plena aceitação da natureza e na celebração da primavera, que não pretende reter o curso das estações, o poema é de um vitalismo nietzscheano.
Farmer in time of frost the burning leagues,
By re d-eyed orchards sow the seeds of snow,
In your young years the vegetable century.
Cultiva as alianças ardentes das épocas de geada
Semeia grãos de neve pelos pomares de olhos escarlates,
E em teus verdes anos planta o século vegetal.
É verdade que o “senhor das trevas” é mencionado como “senhor das moscas”
And father all nor fail the fly-lord’s acre,
Fecunda tudo sem esquecer as terras do senhor das moscas..
É preciso ultrapassá-lo, porém, vencer os fantasmas.
Nor sprout on owl-seed like a goblin-sucker,
But rail with your wizard’s ribs the heart-shaped planet;
E não faças germinar, como um duende de peito, a semente da coruja,
Mas cerca com tuas costelas de mágico o planeta em forma de coração;
O poeta está no mundo e o mundo está dentro do poeta – é o seu próprio coração. E ele exorta a si mesmo a louvar o Criador.
Of mortal voices to the ninnies’ choir,
High lord esquire, speak up the singing cloud
Das vozes mortais ao coro dos ingênuos, ó sublime
Escudeiro do Senhor, eleva o cântico da nuvem que canta.
Ainda que tenha de passar pelo vale das sombras.
Nor when my love lies in the cross-boned drift
Nem quando meu amor flutuar no turbilhão de ossos cruzados
O poeta procura o humano no universo e , em sua religiosidade galesa, pede ao deus dos mares que faça dele um mundo.
O who is glory in the shapeless maps,
Now make the world of me as I have made
A merry manshape of your walking circle.
Ó tu que és a glória dos mapas informes. Cria agora o mundo a partir de mim como tenho criado De teu orbe ambulante a ditosa imagem do homem. ٭٭٭
O nome Dylan Thomas já se transformara em lenda quando, numa segunda-feira, 9 de novembro de 1953, no St. Vincent Hospital de Nova York, morre o poeta, treze dias após ter completado 39 anos. Os minuciosos atestados dos médicos não escondem a causa principal de seu fim trágico e prematuro: a bebida.
Durante 20 anos , conta Ferris, venderam-se relíquias da Boat House de Laugharne, agora museu, em cujo livro de visitantes pode-se ler o comentário do filho mais moço de Dylan, escrito em 1975: “Era uma casa boa de se morar.” E a assinatura: Colm Garan Dylan Thomas. E a quem visita Swansea, recomenda-se que vá olhar, além da casa de nº 5 na Cwmdonkin Drive, o monumento em pedra no Cwmdonkin Park, onde foram gravados os três últimos versos de Fern Hill. Oh as I was young and easy in the mercy of his means, Time held me green and dying Though I sang in my chains like the sea. Ah! quando eu era lépido e jovem, na misericórdia de seus bens, O tempo subjugou-me verde e agonizante Embora eu cantasse em meus grilhões como canta o mar. Pouco importa se o vento e a chuva do severo clima de Gales já estão apagando esses versos. Eles continuarão a ressoar.
٭٭٭
Muito tempo passou e muitos ventos cantaram entre as colinas das Uplands em Swansea antes que o público de língua portuguesa pudesse se aproximar dos versos do Rimbaud da Cwmdonkin Drive. Surgirão discussões. É poeta maior? Menor? É um surrealista? Como muitos grandes, é inclassificável. Dylan diria:
Leia os poemas que você gosta de ler. Não se incomode se são “importantes” ou se irão permanecer. Que importa saber o que a poesia é, afinal? … A poesia é o que me faz rir ou bocejar, o que faz que as unhas dos meus dedões pestanejem, o que faz que eu deseje fazer isto ou aquilo, ou nada.
Foi o que respondeu no questionário de um jovem norte-americano que estava escrevendo uma tese sobre ele. E finalizou:
Você sempre será levado de volta ao mistério de ter sido tocado pelas palavras.8
Olson, o primeiro crítico corajoso a se debruçar sobre a obra difícil de Dylan Thomas, finaliza o ensaio de 1954, The Poetry of Dylan Thomas, com estas palavras:
qualquer que seja o destino de sua reputação, nós, que tivemos a primeira palavra, podemos dizer: que ele nos pareceu um dos grandes artistas de nosso tempo e que, em sua luta para sair da escuridão em direção à luz, ele descobriu a escuridão em nós que de outra maneira não teríamos conhecido, e nos trouxe para uma luz que de outra maneira não teríamos visto.
Impossível dizer melhor. Só nos resta desejar que, no Brasil, muitos possamos descobrir nossa própria escuridão e muitos possamos ver a nós mesmos e o mundo à luz dos duendes e dos bardos, das falésias e dos ventos. Luz de Gales. Dylan Thomas.
finis
NOTAS
Os versos em português estão de acordo com a tradução de Ivan Junqueira, lançada pela Editora José Olympio. 1) cf. C. Fitzgibbon, The Life of Dylan Thomas,Dent & Sons Ltd., Londres, 1965, p.355. 2) Mais ou menos assim começa o roteiro, que permaneceu inacabado, que Dylan Thomas escreveu, baseado em história homônima de Maurice O’Sullivan: Twenty Years a-growing. 3) Fitzgibbon, C. – Resposta a uma pesquisa de um estudante de literatura, que o biógrafo afirma ter sido publicada no Texas Quarterly, sob o título não autorizado de “Manifesto poético de Dylan Thomas”, p. 367. 4) Fitzgibbon. C., op. cit., p.9. 5) Olson, Elder, The poetry of Dylan Thomas, The University of Chicago Press, 1954, p.2 6) Fitzgibbon, C., op. cit. p.373. 7) Ferris, Paul, Dylan Thomas, Penguin Books, Londres, 1978,p.223. 8) Fitzgibbon, C., op. cit. , p. 373 OBRAS CONSULTADAS Ferris, Paul. – Dylan Thomas, Penguin Books, Londres, 1878 Fraser, G.S. – Dylan Thomas, Longmans, Creen & Co., Londres, 1957 Fitzgibbon, Constantine – The Life of Dylan Thomas, Dent & Sons Ltd., Londres, 1965 Magalhães, J. M. – Dylan Thomas, Conseqüências da literatura e do Real em sua Poesia, Assírio e Alvim, Lisboa, 1982 Olson, Elder – The Poetry of Dylan Thomas, The University of Chicago Press, 1954 Prampolini, Santiago – História Universal de la literatura, vol. 4, Literaturas célticas, UTEHA, Argentina, 1940 Thomas, Dylan – Collected Poems, 1934 – 1952, Dent & Sons Ltd. , Londres, 1952 ___________ – Poemas Reunidos, !934 – 1953, tradução de Ivan Junqueira, José Olympio, Rio, 1991 ___________ – Retrato do Artista quando Jovem Cão, José Olympio, Rio, 1991 ___________ – Twenty Years a-growing, roteiro inacabado, baseado em história do mesmo nome de Maurice O’ Sullivan, 1933, Dent & Sons Ltd. ,Londres, 1964. ——————————————————————————– ——————————————————————————– [R1]Acrescentar uma nota sobre o verso que acaba em arms que é:To Wales in my arms, isto é: Para Gales em meus braços. [R2]Tudo isso em nota a partir do asterisco

