(Conclusão)
No fim da guerra, chegam, com o sucesso, os convites para as tournées nos Estados Unidos. Dylan bebe cada vez mais. Caitlin, apesar de briguenta, é paciente e nem um pouco rancorosa. Mas em seu processo de autodestruição, o poeta machuca os que o cercam e tudo arrasta num turbilhão irrefreável. Muitos se perguntam: o que é que leva um homem com todo esse talento a beber assim? Fitzgibbon diz que ao contrário do homem comum que, no fim de um dia de trabalho, ao fechar a gaveta de sua mesa no escritório consegue desligar-se daquilo que muitas vezes faz sem vontade, mecanicamente, o poeta não pode deixar de ser poeta, de ver e de sentir como poeta. Sua sensibilidade é um fardo pesado, um estado de excitação quase constante, não raro capaz de conduzi-lo ao limiar da loucura. Senão, por que a loucura exerceria tanto fascínio sobre os poetas? O próprio Dylan nutria um especial respeito por Vernon Watkins porque este, na adolescência, estivera internado, com problemas mentais. Além disso, a insatisfação do artista, em permanente luta com a resistência da matéria de seus sonhos, o leva, quando descansa, a atordoar-se, a tentar anestesiar-se. E a embriaguez do álcool serve de metáfora para a outra embriaguez, a da criação.
Qualquer que seja a trajetória do artista, seu desregramento ou seu sofrimento, sua dedicação ou sacrifício – em uma palavra: sua paixão –, o que transcende e justifica tudo isso é que a obra de arte nos revela, como diz Borges, a nossa própria cara. Sim, além de encarnar o espírito do tempo, a arte nos diz quem somos, não importa se contemporâneos ou compatriotas do artista, pois ele capta, para além do espírito do tempo, e cada vez de forma nova, original, o sentido universal da condição humana. Por essa razão, nos emocionamos tanto com a tragédia grega quanto com Goethe, com Dickens ou Guimarães Rosa, com Cecília Meireles e com Dylan Thomas.
Antes da primeira viagem aos Estados Unidos, houve, em 1947, uma pequena temporada na Itália, embora Dylan acreditasse que o único lugar para um escritor “fogoso e fluente” era a Inglaterra, como escreveu, certa vez, para Lawrence Durrell.
Os mais elevados hinos ao sol são escritos no escuro…se eu fosse para o sol apenas me sentaria ao sol.7
Mesmo assim, graças aos esforços de amigos que, comandados por Margaret Taylor, – uma de suas protetoras – , lhe arranjaram uma espécie de bolsa de estudos, partiram para o país do sol. Visitaram Milão, que ele descreveu como “uma gigantesca cidade de pesadelo”, Roma, a Riviera italiana, e depois se instalaram perto de Florença, numa casa sobre uma colina. O grupo era formado por Caitlin, a irmã desta, Dylan e duas crianças saltitantes e barulhentas. O poeta trabalhou mal: em três meses, produziu apenas o longo poema “No sono campestre”.
Apesar das imagens desses versos não serem das mais complicadas, Dylan teve de explicá-las mais tarde, em Nova York. O poeta fala de um ladrão e adverte uma pessoa, ou criança, para tomar cuidado. Brincando, Dylan ora dizia que o ladrão era o ciúme, ou o álcool, a fama, o sucesso, o excesso de introspecção, ou então: qualquer coisa que lhe roube a fé ou sua razão de existir. Ele não gostava que interpretassem sua poesia, queria ser compreendido literalmente. E as críticas vinham ferozes: “ é um destrambelhado passeio por um manicômio”, disse H.G.Porteus ( crítico provavelmente esquecido hoje em dia); o poeta Stephen Spender que, segundo Ferris, mudou mais tarde de opinião, referiu-se a um “material poético sem começo nem fim, nem controle inteligente ou inteligível”. O galês era difícil até para seus pares.
That though I loved them for their faults
As m uch as for their good,
My friends were enemies on stilts
With their heads in a cunning cloud.
Pois ainda quando os amei por seus defeitos
Tanto quanto por suas qualidades,
Meus amigos eram inimigos sobre pernas de pau
Com as cabeças ocultas numa nuvem astuciosa.
Olson, que chegou a organizar um glossário com as palavras mais difíceis e recorrentes na poesia de Dylan Thomas, apontou nada menos que seis níveis de compreensão só no poema “Como um altar em meio às trevas”. O primeiro, da analogia da vida humana com o ano e suas estações; o segundo, no qual o homem e o sol são comparados; um terceiro, onde os símbolos são os da própria subjetividade do poeta; um quarto, em que Hércules encarna antigo mito grego do sol; um quinto, no qual Hércules é a constelação de Hércules; e finalmente um sexto, que seria o da roupagem cristã nesses mitos antigos. Essa estranha elucubração do crítico de Chicago vem apenas provar que, como disse Umberto Eco, a obra de arte é uma obra aberta.
O mesmo Olson observou que só uma vez em toda a sua obra poética, Dylan se permitiu experimentar o fluxo de uma narrativa delirante e fantasmagórica, como a do Bateau Ivre de Rimbaud. Foi na “Balada da isca andarilha”, onde
All the fishes were rayed in blood,
Said the dwindling ships.
Todos os peixes estavam raiados de sangue,
Disseram os navios em ruínas.
Poema complicado, povoado por insólitas metáforas e imagens enigmáticas, que Dylan se comprazia em explicar como a simples trajetória de um rapaz que vai pescar apenas para se divertir, em busca das selvagens alegrias de uma vida livre e despreocupada e que se dá conta, no fim, de que já tem mulher e filhos, e uma pequena casa para cuidar. Que não se esqueça o cinismo brincalhão do poeta!
Quando, em 1950, o galês chega na América, famoso, festejado, assediado por mulheres, a fonte dos sons e dos sonhos parecia quase seca. Agora é o homem da performance, do discurso, da leitura dramática, por mais que Caitlin tenha lutado para mantê-lo fiel à missão de poeta. Em Gales, na amada Laugharne, tinham finalmente uma casa – a Boat House , doada por Margaret Taylor. E quando Dylan estava terminando de celebrar a mudança, com o poema “Sobre a colina de Sir John”, chegou a oferta tentadora do Centro de Poesia , uma associação semi acadêmica de Nova York.
Foram quatro as viagens aos Estados Unidos e mais de 100 as apresentações: leituras de poemas dele e de outros, conferências, debates, recitais de prosa e de poesia. Dylan tinha muito de um ator. Percorreu todo o país e não há Universidade norte-americana hoje que não guarde, como relíquias, seus textos e gravações, num esforço de preservar o sopro, a cadência da voz e a luz das palavras do extraordinário Merlin do século XX, mago e poeta, saltimbanco trágico que soube como ninguém tocar, comover, encantar e enfeitiçar a todos que o ouviam.
Já então prisioneiro de sua persona, inchado pela bebida, prematuramente envelhecido, nos últimos três anos desta fase das viagens, apesar de ganhar muito, não há dinheiro que chegue, envolve-se com várias mulheres, mas volta sempre para Caitlin, vive o tumulto das grandes cidades e sonha com as colinas e lagos cinzentos, com o mar e com os ventos de Gales. Vive sua última vertigem de glória e exílio, de sucesso e solidão. O corpo doente, desgastado, parece incapaz de conter a exaltação do espírito, seus tormentos, sua angústia.
Os poucos poemas que escreve, como quem fecha um ciclo, retratam as paisagens da infância, raiz de onde brotaram seus melhores contos, sua melhor prosa, a do Retrato do Artista quando Jovem Cão, que ele garantia só ter afinidade com Joyce no título. De algum modo, sempre tivera medo de cortar os elos com a infância e com a adolescência em Gales. No fim, sua poesia parece brotar de uma redescoberta da inocência. A magia é reencontrada nas pinceladas rápidas de “Conto de inverno” e em “Colina das Samambaias”.
Diz Fraser que os pintores de Gales, contemporâneos de Dylan, têm o mesmo tipo de tonalidade em seus quadros. Melancolia e inocência.
Como observa Olson, o universo da escuridão com seus horrores, com os fantasmas saídos de quadros de Jeronimus Bosch, desaparecem no final. Não que ele estivesse saindo do Inferno para o Céu, mas como se tentasse recuperar, no encanto natural de Gales, seu paraíso perdido.
Já em “Nutre a luz”, de Twenty Five Poems, seu segundo livro, Dylan, que se dizia “o poeta das trevas”, expressa o desejo de fundir-se com o universo, buscando a luz onde quer que se encontrasse, para conhecer e dominar a escuridão. Em sua plena aceitação da natureza e na celebração da primavera, que não pretende reter o curso das estações, o poema é de um vitalismo nietzscheano.
Farmer in time of frost the burning leagues,
By re d-eyed orchards sow the seeds of snow,
In your young years the vegetable century.
Cultiva as alianças ardentes das épocas de geada
Semeia grãos de neve pelos pomares de olhos escarlates,
E em teus verdes anos planta o século vegetal.
É verdade que o “senhor das trevas” é mencionado como “senhor das moscas”
And father all nor fail the fly-lord’s acre,
Fecunda tudo sem esquecer as terras do senhor das moscas..
É preciso ultrapassá-lo, porém, vencer os fantasmas.
Nor sprout on owl-seed like a goblin-sucker,
But rail with your wizard’s ribs the heart-shaped planet;
E não faças germinar, como um duende de peito, a semente da coruja,
Mas cerca com tuas costelas de mágico o planeta em forma de coração;
O poeta está no mundo e o mundo está dentro do poeta – é o seu próprio coração. E ele exorta a si mesmo a louvar o Criador.
Of mortal voices to the ninnies’ choir,
High lord esquire, speak up the singing cloud
Das vozes mortais ao coro dos ingênuos, ó sublime
Escudeiro do Senhor, eleva o cântico da nuvem que canta.
Ainda que tenha de passar pelo vale das sombras.
Nor when my love lies in the cross-boned drift
Nem quando meu amor flutuar no turbilhão de ossos cruzados
O poeta procura o humano no universo e , em sua religiosidade galesa, pede ao deus dos mares que faça dele um mundo.
O who is glory in the shapeless maps,
Now make the world of me as I have made
A merry manshape of your walking circle.
Ó tu que és a glória dos mapas informes. Cria agora o mundo a partir de mim como tenho criado De teu orbe ambulante a ditosa imagem do homem. ٭٭٭
O nome Dylan Thomas já se transformara em lenda quando, numa segunda-feira, 9 de novembro de 1953, no St. Vincent Hospital de Nova York, morre o poeta, treze dias após ter completado 39 anos. Os minuciosos atestados dos médicos não escondem a causa principal de seu fim trágico e prematuro: a bebida.
Durante 20 anos , conta Ferris, venderam-se relíquias da Boat House de Laugharne, agora museu, em cujo livro de visitantes pode-se ler o comentário do filho mais moço de Dylan, escrito em 1975: “Era uma casa boa de se morar.” E a assinatura: Colm Garan Dylan Thomas. E a quem visita Swansea, recomenda-se que vá olhar, além da casa de nº 5 na Cwmdonkin Drive, o monumento em pedra no Cwmdonkin Park, onde foram gravados os três últimos versos de Fern Hill. Oh as I was young and easy in the mercy of his means, Time held me green and dying Though I sang in my chains like the sea. Ah! quando eu era lépido e jovem, na misericórdia de seus bens, O tempo subjugou-me verde e agonizante Embora eu cantasse em meus grilhões como canta o mar. Pouco importa se o vento e a chuva do severo clima de Gales já estão apagando esses versos. Eles continuarão a ressoar.
٭٭٭
Muito tempo passou e muitos ventos cantaram entre as colinas das Uplands em Swansea antes que o público de língua portuguesa pudesse se aproximar dos versos do Rimbaud da Cwmdonkin Drive. Surgirão discussões. É poeta maior? Menor? É um surrealista? Como muitos grandes, é inclassificável. Dylan diria:
Leia os poemas que você gosta de ler. Não se incomode se são “importantes” ou se irão permanecer. Que importa saber o que a poesia é, afinal? … A poesia é o que me faz rir ou bocejar, o que faz que as unhas dos meus dedões pestanejem, o que faz que eu deseje fazer isto ou aquilo, ou nada.
Foi o que respondeu no questionário de um jovem norte-americano que estava escrevendo uma tese sobre ele. E finalizou:
Você sempre será levado de volta ao mistério de ter sido tocado pelas palavras.8
Olson, o primeiro crítico corajoso a se debruçar sobre a obra difícil de Dylan Thomas, finaliza o ensaio de 1954, The Poetry of Dylan Thomas, com estas palavras:
qualquer que seja o destino de sua reputação, nós, que tivemos a primeira palavra, podemos dizer: que ele nos pareceu um dos grandes artistas de nosso tempo e que, em sua luta para sair da escuridão em direção à luz, ele descobriu a escuridão em nós que de outra maneira não teríamos conhecido, e nos trouxe para uma luz que de outra maneira não teríamos visto.
Impossível dizer melhor. Só nos resta desejar que, no Brasil, muitos possamos descobrir nossa própria escuridão e muitos possamos ver a nós mesmos e o mundo à luz dos duendes e dos bardos, das falésias e dos ventos. Luz de Gales. Dylan Thomas.
finis
NOTAS
Os versos em português estão de acordo com a tradução de Ivan Junqueira, lançada pela Editora José Olympio. 1) cf. C. Fitzgibbon, The Life of Dylan Thomas,Dent & Sons Ltd., Londres, 1965, p.355. 2) Mais ou menos assim começa o roteiro, que permaneceu inacabado, que Dylan Thomas escreveu, baseado em história homônima de Maurice O’Sullivan: Twenty Years a-growing. 3) Fitzgibbon, C. – Resposta a uma pesquisa de um estudante de literatura, que o biógrafo afirma ter sido publicada no Texas Quarterly, sob o título não autorizado de “Manifesto poético de Dylan Thomas”, p. 367. 4) Fitzgibbon. C., op. cit., p.9. 5) Olson, Elder, The poetry of Dylan Thomas, The University of Chicago Press, 1954, p.2 6) Fitzgibbon, C., op. cit. p.373. 7) Ferris, Paul, Dylan Thomas, Penguin Books, Londres, 1978,p.223. 8) Fitzgibbon, C., op. cit. , p. 373 OBRAS CONSULTADAS Ferris, Paul. – Dylan Thomas, Penguin Books, Londres, 1878 Fraser, G.S. – Dylan Thomas, Longmans, Creen & Co., Londres, 1957 Fitzgibbon, Constantine – The Life of Dylan Thomas, Dent & Sons Ltd., Londres, 1965 Magalhães, J. M. – Dylan Thomas, Conseqüências da literatura e do Real em sua Poesia, Assírio e Alvim, Lisboa, 1982 Olson, Elder – The Poetry of Dylan Thomas, The University of Chicago Press, 1954 Prampolini, Santiago – História Universal de la literatura, vol. 4, Literaturas célticas, UTEHA, Argentina, 1940 Thomas, Dylan – Collected Poems, 1934 – 1952, Dent & Sons Ltd. , Londres, 1952 ___________ – Poemas Reunidos, !934 – 1953, tradução de Ivan Junqueira, José Olympio, Rio, 1991 ___________ – Retrato do Artista quando Jovem Cão, José Olympio, Rio, 1991 ___________ – Twenty Years a-growing, roteiro inacabado, baseado em história do mesmo nome de Maurice O’ Sullivan, 1933, Dent & Sons Ltd. ,Londres, 1964. ——————————————————————————– ——————————————————————————– [R1]Acrescentar uma nota sobre o verso que acaba em arms que é:To Wales in my arms, isto é: Para Gales em meus braços. [R2]Tudo isso em nota a partir do asterisco
Nota final da autora:
Fiquei muito feliz com esta reapresentação do meu ensaio sobre o comovente poeta de Swansea, que aprendi a apreciar muito jovem, ao ver citados, num livro de Simone de Beauvoir, os versos pungentes de sua famosa villanelle :
Do not go gentle into that good night.
Rage, rage, against the dying of the light.
Agradeço, portanto, aos amigos argonautas, a inserção de meu texto nesta celebração do Centenário do Merlin galês do século XX.
Rachel Gutiérrez

