os oito camaradas estavam encerrados na cela número catorze e havia
três maçãs
uma das quais parcialmente apodrecida
o mais baixo dos presos
muito magro
deitado tinha dificuldade na respiração
enquanto os outros
mais recentes no forte
se sentiam em razoável estado
vladimiro descascou as maçãs
tirou-lhes as sementes e as partes deterioradas
cortou os frutos aos pedaços
e todos obrigaram o doente a comer
nessa noite e nas duas seguintes
josé rolando sentiu-se apoiado e agasalhado pelos companheiros
quando ele exalou o último suspiro
vladimiro inventou uma oração de esperança
e recitaram-na num murmúrio
ao fim de uma tarde de outono
o cadáver foi levado por quatro guardas
no ar da cela havia um belo cheiro a maçãs
a rara serenidade comungada pelos sete camaradas
no dia seguinte seriam dispersos por outras celas
e cada um deles levava uma chama
(de “Histórias do Tempo da Outra Senhora”)
Jornalista, poeta e romancista. Obra poética: “Urgência” (1966), “Atento como um Lobo” (1975), “Crónica do Cerco” (1978), “Correm turvas as águas deste rio” (1983), “O Rude Tempo” (1985), “Histórias do Tempo da Outra Senhora” (1985), “Piano Bar” (1986), “Máscaras Venezianas” (1987).