POESIA AO AMANHECER – 282 – por Manuel Simões

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JOSÉ VIALE MOUTINHO

( 1945 )

MAÇÃS NA CELA

os oito camaradas estavam encerrados na cela número catorze e havia

três maçãs

uma das quais parcialmente apodrecida

o mais baixo dos presos

muito magro

deitado  tinha dificuldade na respiração

enquanto os outros

mais recentes no forte

se sentiam em razoável estado

vladimiro descascou as maçãs

tirou-lhes as sementes e as partes deterioradas

cortou os frutos aos pedaços

e todos obrigaram o doente a comer

nessa noite e nas duas seguintes

josé rolando sentiu-se apoiado e agasalhado pelos companheiros

quando ele exalou o último suspiro

vladimiro inventou uma oração de esperança

e recitaram-na num murmúrio

ao fim de uma tarde de outono

o cadáver foi levado por quatro guardas

no ar da cela havia um belo cheiro a maçãs

a rara serenidade comungada pelos sete camaradas

no dia seguinte seriam dispersos por outras celas

e cada um deles levava uma chama

(de “Histórias do Tempo da Outra Senhora”)

Jornalista, poeta e romancista. Obra poética: “Urgência” (1966), “Atento como um Lobo” (1975), “Crónica do Cerco” (1978), “Correm turvas as águas deste rio” (1983), “O Rude Tempo” (1985), “Histórias do Tempo da Outra Senhora” (1985), “Piano Bar” (1986), “Máscaras Venezianas” (1987).

1 Comment

  1. *no ar da cela havia um belo cheiro a mas* *a rara serenidade comungada pelos sete camaradas* *no dia seguinte seriam dispersos por outras celas* *e cada um deles levava uma chama” -um momento potico impregnado pela fora da solidariedade -admirvel e comovente -Maria *

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