Site icon A Viagem dos Argonautas

Reflexões sobre a morte da zona euro, sobre os caminhos seguidos na Europa a caminho dos anos 1930

Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

A  Europa  em   1931  e agora, também

James Hamilton , Janeiro de  2012

Parte I 

Estive numa conferência no Instituto Cato há já duas semanas a discutir os trabalhos de investigação de Doug Irwin, Professor em Dartmouth, a discutir o papel do padrão-ouro durante a grande depressão de 1929-1933. Aqui eu gostaria de relacionar o que aí se discutiu com o que aconteceu na Europa em 1931 e comentar alguns dos paralelos com o que está a acontecer hoje.

Legenda. Dockers no porto de Hamburgo em Janeiro de 1931. Foto de Andrew and Joshua.

Algumas pessoas pensam que a Grande Depressão teve início ou que terá mesmo sido provocada pelo crash da Bolsa no mês de  Outubro de 1929. Mas os dados apresentados por Robert Shiller indicam uma forte descida no mercado em cerca de 26%, nesse mês o que foi não muito pior do que a descida de 20% que se verificou em Setembro de 2008. De Setembro de 1929 a Março de 1931, a descida acumulada no mercado das acções foi 44%, ou seja, foi mais suave do que o declínio de 49% que se verificou desde Setembro de 2007 a Março de 2009

Dados de Shiller:

O Índice da produção industrial do Federal Reserve caiu 28% desde   Setembro de 1929 até Março de 1931, um pouco mais grave do que a queda de 17% registada na recessão mais recente. Mas se a economia dos EUA mudou de trajectória de crescimento no início de 1931, nós estaríamos a falar sobre este período como sendo apenas o período em que se verificou uma outra dura recessão . A razão pela qual, em vez disso, lhe chamamos Grande Depressão é que o mercado de acções voltou a cair mais 61% e a produção industrial voltou a cair mais 27%,  a partir dos níveis de Março de 1931.

O que aconteceu em 1931 para transformar uma dura crise económica numa Grande Depressão? Os acontecimentos dramáticos na Europa incluíam a falência do maior banco de, Áustria, o Credit-Anstalt, em maio de 1931. Foi seguida por diversas corridas aos bancos que se verificaram na Hungria, Checoslováquia, Roménia, Polónia e na Alemanha. Como é historicamente frequente os problemas financeiros eram o resultado duma combinação de uma crise bancária – não tenho a certeza de quando puder retirar os marcos da minha conta – com uma crise cambial-  não estou certo se adquirir os meus marcos  se eles estarão a valer o mesmo, a valer o mesmo  que antes, quando os depositei. Agora, é preferível ter ouro do que marcos numa conta em qualquer  banco alemão em dificuldades.

Legenda: Uma corrida aos bancos, neste caso em Berlim no mês de Julho de 1931 , Foto de Andrew and Joshua.
 Legenda: Uma outra corrida aos bancos, neste caso em Berlim no mês de Novembro de  1931, Foto de Andrew and Joshua.

O painel superior do gráfico abaixo mostra a quantidade de ouro na posse do Banco da Inglaterra durante o ano de 1931. Inicialmente o ouro fluía para o Banco da Inglaterra, apesar do facto de que o Banco ter descido a sua taxa de desconto, numa espécie de corrida para a qualidade, para a segurança. No entanto, as preocupações aumentaram de tal modo que alguns dos activos do próprio Banco de Inglaterra sobre o Continente poderiam eles mesmos ficar bloqueados. O país assiste a uma rápida saída de ouro naquele Verão e o resultado final foi o de que Grã-Bretanha abandonou o padrão-ouro em 19 de Setembro de 1931.

O painel superior: as reservas de ouro do Banco da Inglaterra, em milhões de dólares dos EUA, de Janeiro a Dezembro de 1931, com os valores de final do mês. Fonte de dados: Banking and Monetary Statistics, p. 551serviços bancários e estatísticas monetárias, p. 551.

Painel inferior: A taxa de desconto do Banco de Inglaterra, em percentagem, de Janeiro a Dezembro de 1931, com os valores de final do mês. Fonte de dados: Global Financial Data. Figura reproduzida em Hamilton (2012).

 (continua)

Exit mobile version