POESIA AO AMANHECER – 292 – por Manuel Simões
13 anos ago
ANTÓNIO CÂNDIDO FRANCO
( 1956 )
ÁGUA (fragmento)
A água é terra antes de estar sólida.
O homem deita-se nela à espera.
Pouco a pouco o peito torna-se podre.
É uma caverna pantanosa
que respira anéis de enxofre.
A carne dissolve-se em Iodo. Afunda-se
nos limos da terra, húmido lume.
As águas trazem o sono.
Calcinam-nos os membros, inflamam-nos
o sangue. Deitado em lençóis de cal
o homem desfaz-se em Iodo
e depois em sonhos. O sangue é
o combutível da luz.
(…)
As águas profundas reabsorvem as cinzas.
A saudade desfaz-nos o corpo em febre.
Fezes.
Sobre o Iodo aparecem estrelas de oiro
círculos brilhantes de luz, pedras brancas
de sal.
(de “Poesia Digital”)
Crítico literário, ensaísta, poeta e dramaturgo. Estudioso do Surrealismo e de Teixeira de Pascoaes. Incluído em “Poesia Digital. 7 poetas dos anos 80” (2002) e reuniu a sua obra poética em “Estâncias Reunidas. 1977-2002 (2003).