Politicamente correto
Moro no Bairro das Colónias, leram bem, no Bairro das Colónias. Costumo todavia ouvir:
– Isso já não existe!
Com tamanha convição que, não fora o vício de pensar, eu deitava fora as chaves, ia dormir com os drogados. Permitam portanto que aqui esclareça… Se Portugal não tem hoje colónias, tem contudo um Bairro das Colónias, o qual se situa em Lisboa entre a avenida de Almirante Reis, as ruas de Liverpool, do Forno do Tijolo e da Penha de França. Esta denominação que tanto surprende, que tanta gente projeta na perplexidade, que nuns auditores causa mutismo, a outros arranca protestos, aos restantes inspira olhares sentenciosos, um comentário corregedor, um embaraço indignado, como se eu tomasse duche com leite de gazela, percorresse numa liteira o Caminho de Santiago, foi escolhida por, na época de construção do bairro, Portugal, pioneiro dos Descobrimentos, inventor da sociedade global, conservar algumas colónias que os outros países europeus não haviam conseguido tirar-lhe.
Nomear é uma epifania do poder. Quem nomeia? Os pais, os donos: os que sabem e podem. Vemos no “Genesis” que o Criador separou a luz das trevas, criou o céu, a terra, o mar e deu-lhes nomes; Adão – modelado à sua imagem e semelhança – organiza o resto da Criação. Nomear é agir sobre o mundo, imprimir-lhe uma marca, esculpi-lo à nossa imagem…
Ora no fim dos anos vinte, quando construíram este bairro numa colina escalavrada, a ideologia dominante – das denominações e empreendimentos autorizados – era colonial e nacionalista, por conseguinte deram ao conjunto de ruas o nome de “Bairro das Colónias”. Rua de Angola, Rua da Guiné, Rua de Macau, Rua de Moçambique, Rua de Cabo Verde… Nunca repararam? E, se os leitores olharem para o mapa com atenção, logo compreendem o significado de “Praça das Novas Nações”, uma denominação posterior às independências: evidentemente.
Entretanto muitas águas correram no Tejo como no Cuanza, houve a Guerra Colonial e seus mortos, o 25 de abril e seus heróis, a independência e seus dramas, há o presente e suas conquistas, mas os Descobrimentos, a colonização, a descolonização, as consequentes glórias, os ocorridos dramas continuam a fazer parte da nossa história. E o Bairro das Colónias não só ainda existe mas importa que exista: constitui um pedaço do nosso tempo – mais vasto do que o presente – inscrito no nosso espaço.
Agora, no século XXI, a Índia, Macau, os países africanos lusófonos ultrapassaram a luta anticolonial, implicaram-se em problemáticas nacionais, inquietante fora se, em vez de construírem o presente, incessantemente mascassem o passado, em contrapartida o arrepio que faz estremecer os meus interlocutores quando ouvem “Bairro das Colónias” é, no fim de contas, um reflexo da era colonial. Deixemo-nos disso! Mais uma vez… O politicamente correto é um belo par de orelhas.
